Minerais do fundo do oceano podem entrar em combustão espontânea, revela estudo

Fontes hidrotermais formam depósitos ricos em sulfetos metálicos. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

O fundo do oceano guarda enormes depósitos minerais formados em torno de fontes hidrotermais. Entre eles estão os chamados sulfetos maciços do fundo do mar, estruturas ricas em diferentes metais que vêm despertando interesse pela possibilidade de exploração no futuro.

Porém, um novo estudo acaba de revelar uma característica surpreendente desses materiais: algumas rochas podem apresentar autoaquecimento e combustão espontânea quando entram em determinadas condições de oxidação.

A descoberta não significa que o fundo do oceano esteja literalmente pegando fogo. O fenômeno observado ocorreu durante o processamento de amostras em laboratório, mas revela uma propriedade química que pode ser importante para entender o comportamento desses depósitos quando são retirados do ambiente marinho.

Uma reação química capaz de liberar muito calor

A investigação analisou rochas coletadas na Depressão de Escanaba, localizada na Dorsal de Gorda Sul, no Pacífico. Os pesquisadores compararam amostras que sofreram combustão durante o processamento com outras rochas do mesmo local que não apresentaram esse comportamento.

A diferença estava principalmente na composição e na estrutura dos minerais.

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As amostras que entraram em combustão eram formadas principalmente por marcasita nanocristalina, um mineral que havia substituído a estrutura de cristais de pirrotita anteriormente presentes na rocha.

Esse detalhe é importante porque materiais com estruturas extremamente pequenas podem apresentar propriedades químicas diferentes de seus equivalentes mais estáveis.

Durante a oxidação, os sulfetos metálicos podem reagir com o oxigênio e liberar energia na forma de calor. Se o calor produzido não for dissipado rapidamente, ele pode contribuir para um processo de autoaquecimento.

O fundo do mar pode esconder minerais mais reativos

Como sulfetos marinhos modernos reagem com O₂ para gerar calor. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Os pesquisadores também realizaram análises termogravimétricas e cálculos termodinâmicos para avaliar diferentes reações envolvendo a oxidação dos sulfetos.

Os resultados indicaram que essas reações podem ser particularmente exotérmicas quando o oxigênio participa como agente oxidante, situação compatível com ambientes em contato com água do mar ou com o ar.

Além disso, as características dos depósitos modernos de sulfetos maciços podem favorecer um comportamento diferente daquele observado em depósitos minerais antigos.

A combinação entre mineralogia, textura e estrutura microscópica parece ser fundamental para determinar a estabilidade e a capacidade de autoaquecimento dessas rochas.

A descoberta importa para a futura mineração submarina

O interesse pelo resultado vai além da curiosidade geológica. Os depósitos de sulfetos maciços submarinos são considerados potenciais fontes de metais e estão sendo estudados para possíveis atividades de mineração em águas profundas.

Se determinados minerais se tornam mais reativos depois de retirados de seu ambiente original, compreender esse comportamento será importante para o armazenamento, transporte e processamento do material.

Ainda assim, o estudo não demonstra que operações de mineração submarina inevitavelmente provocarão incêndios. A combustão foi observada durante o processamento laboratorial de amostras específicas, e serão necessários estudos adicionais para determinar como esse comportamento poderia ocorrer em condições reais de exploração.

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A descoberta que chamou atenção para os minerais do fundo do mar

O estudo foi publicado em 28 de setembro de 2026 na revista científica Scientific Reports, tendo Amy Gartman como autora principal.

A pesquisa chama atenção justamente por revelar uma propriedade pouco conhecida de minerais encontrados em um dos ambientes mais extremos do planeta. Além disso, mostra como alterações microscópicas na estrutura dos minerais podem produzir consequências químicas surpreendentes quando essas rochas deixam as condições estáveis do fundo do oceano.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes