Uma região aparentemente vazia no espaço esconde uma história extremamente turbulenta. Em uma nova imagem do Telescópio Espacial Hubble, uma gigantesca estrutura em forma de bolha aparece no interior da Grande Nuvem de Magalhães, revelando como estrelas muito massivas podem transformar completamente o ambiente ao redor delas.
O cenário está na LHA 120-N44, uma região de formação estelar localizada na constelação de Dorado, a aproximadamente 160 mil anos-luz da Terra. Apesar da enorme distância, o Hubble consegue distinguir estrelas individuais e estruturas delicadas presentes nessa espécie de berçário cósmico.
No centro da nebulosa existe uma região relativamente vazia, cercada por uma concentração de gás e poeira. Essa estrutura é conhecida como superbolha N44 e mede aproximadamente 210 por 140 anos-luz.
O mais interessante é que o vazio não surgiu por acaso.
Um espaço gigantesco esculpido pela violência das estrelas
As estrelas mais massivas localizadas no interior de N44 liberam quantidades extraordinárias de energia. Seus ventos estelares, formados por partículas lançadas a velocidades elevadas, empurram o material existente ao redor.
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Entrar no Canal do WhatsAppAlém disso, algumas dessas estrelas chegam ao fim de suas vidas em explosões de supernova. A combinação desses fenômenos produz uma espécie de limpeza cósmica, deslocando grandes quantidades de gás e criando a enorme cavidade observada no centro da nebulosa.
Assim, aquilo que parece um espaço vazio na fotografia é, na realidade, o resultado de uma intensa atividade estelar.
Ao redor da cavidade permanece uma camada mais densa de gás e poeira. E é justamente nessa região que acontece outro processo fascinante: novas estrelas estão começando a surgir.
A explosão de uma geração pode ajudar a criar outra
Existe uma espécie de ciclo acontecendo dentro de N44.
Primeiro, estrelas massivas modificam o ambiente por meio de seus ventos e explosões. O material que é empurrado para longe pode se concentrar em determinadas regiões, comprimindo o gás.
Quando uma nuvem suficientemente densa perde estabilidade sob a ação da gravidade, ela pode começar a colapsar. O processo dá origem a objetos jovens que, com o tempo, podem se transformar em estrelas.
Por isso, a superbolha é muito mais do que uma estrutura bonita registrada pelo Hubble. Ela funciona como um laboratório natural para estudar a formação estelar.
Os astrônomos querem compreender, por exemplo, quanto tempo pode levar entre o início do colapso de uma nuvem fria de gás e o momento em que uma estrela recém-formada começa a produzir energia por meio da fusão nuclear.
Hubble encontrou milhares de estrelas que ainda estão “crescendo”
A capacidade do Hubble de observar objetos muito tênues permitiu realizar um verdadeiro censo estelar em N44.
No programa de observação identificado como #14689, liderado por Dimitrios A. Gouliermis, os pesquisadores analisaram uma população de quase 500 mil estrelas associadas à região e a objetos que aparecem sobrepostos no campo de visão.
Entre elas, aproximadamente 30 mil foram identificadas como estrelas pré-sequência principal.
Esse nome pode parecer complicado, mas representa uma etapa fundamental da vida estelar. Esses objetos ainda estão em processo de formação e não iniciaram a fusão estável de hidrogênio em hélio em seus núcleos, característica que marca a entrada na sequência principal.
Observar uma quantidade tão grande desses astros jovens permite comparar diferentes fases do desenvolvimento estelar dentro de uma mesma região.
Uma segunda bolha aparece no canto da imagem
A gigantesca N44 não é a única estrutura interessante do cenário.
Próxima ao canto superior direito da imagem está N44F, uma bolha muito menor formada pela ação de uma única estrela quente e massiva.
Nesse caso, os ventos emitidos pela estrela empurram o gás ao redor e esculpem a estrutura. A radiação ultravioleta também desempenha um papel importante, fazendo com que o material seja energizado e passe a emitir luz.
O resultado inclui estruturas que lembram pilares de gás e poeira, moldados pela interação entre a radiação intensa e o material interestelar.
Embora N44 e N44F tenham origens relacionadas à atividade de estrelas massivas, suas escalas são bastante diferentes.
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A Grande Nuvem de Magalhães guarda uma pista sobre o Universo antigo
A localização de N44 torna a observação ainda mais interessante.
A Grande Nuvem de Magalhães é uma pequena galáxia satélite da Via Láctea e possui uma quantidade menor de elementos mais pesados que o hélio quando comparada à nossa galáxia.
Esses elementos, chamados pelos astrônomos de metais, são importantes porque influenciam processos físicos envolvidos na formação e evolução das estrelas.
Por isso, observar estrelas jovens em um ambiente como N44 também permite estudar condições que podem se aproximar, em alguns aspectos, das encontradas em galáxias mais pobres em metais e em períodos antigos da história do Universo.
A imagem do Hubble, portanto, mostra muito mais do que uma gigantesca bolha no espaço. Ela registra um momento de transformação: estrelas antigas e explosivas remodelam o ambiente, enquanto novas estrelas começam a nascer ao redor.
É justamente nessa interação entre destruição e criação que N44 se torna um dos cenários mais interessantes para compreender como os berçários estelares funcionam.
