Homens e mulheres enfrentam perigos distintos com obesidade, diz pesquisa

Obesidade impacta homens e mulheres de forma diferente. (Foto: Diversifylens via Canva)
Obesidade impacta homens e mulheres de forma diferente. (Foto: Diversifylens via Canva)

A obesidade é frequentemente tratada como um problema uniforme, mas a ciência começa a mostrar que essa visão está longe da realidade. Novas evidências indicam que homens e mulheres enfrentam riscos distintos, com impactos diferentes no metabolismo, no coração e até na inflamação do corpo.

Dados apresentados no Congresso Europeu sobre Obesidade (ECO), em 2026, com base em pesquisa liderada por Zeynep Pekel, revelam que o sexo biológico influencia diretamente como o organismo reage ao excesso de gordura. Isso abre caminho para abordagens mais personalizadas no tratamento da condição.

Gordura se instala em lugares diferentes

Um dos achados mais relevantes do estudo é a forma como a gordura se distribui no corpo.

Nos homens, há maior acúmulo de gordura visceral, localizada na região abdominal e ao redor dos órgãos. Esse tipo é considerado mais perigoso, pois está ligado a:

  • Doenças cardiovasculares
  • Diabetes tipo 2
  • Problemas metabólicos graves

Além disso, os homens apresentaram níveis mais altos de enzimas hepáticas, o que pode indicar sobrecarga ou danos ao fígado.

Por outro lado, as mulheres tendem a acumular mais gordura subcutânea. Ainda assim, isso não significa menor risco.

Inflamação silenciosa: o risco que pesa mais nas mulheres

Inflamação é mais intensa em mulheres com obesidade. (Foto: RyanKing999 via Canva)
Inflamação é mais intensa em mulheres com obesidade. (Foto: RyanKing999 via Canva)

Enquanto os homens concentram riscos mais metabólicos, as mulheres demonstram maior predisposição a um estado de inflamação crônica.

O estudo identificou nelas níveis mais elevados de:

  • Colesterol total
  • LDL (colesterol ruim)
  • Proteína C-reativa
  • Marcadores inflamatórios

Esse padrão aumenta significativamente o risco de doenças cardíacas e diabetes, mesmo quando a gordura não está concentrada no abdômen.

Além disso, a resposta imunológica feminina tende a ser mais ativa, o que pode intensificar processos inflamatórios no organismo.

O papel dos hormônios nessa equação

As diferenças observadas não acontecem por acaso. Elas estão diretamente ligadas a fatores biológicos, especialmente os hormônios.

O estrogênio, por exemplo, influencia:

  • Onde a gordura é armazenada
  • Como o corpo responde à inflamação
  • A forma como o metabolismo funciona

Nos homens, a tendência é o acúmulo de gordura em áreas mais profundas, enquanto nas mulheres há maior interação com o sistema imunológico, favorecendo respostas inflamatórias.

Riscos globais que vão além da balança

A obesidade faz parte de um quadro mais amplo chamado síndrome metabólica, que envolve fatores como pressão alta, glicose elevada e colesterol alterado.

Segundo análise publicada na revista Nature Communications (2023), cerca de 1,54 bilhão de adultos vivem com essa condição no mundo, o que reforça a dimensão do problema.

Nesse contexto, entender as diferenças entre homens e mulheres se torna essencial para reduzir riscos e melhorar a prevenção.

Por que esse conhecimento muda tudo?

Os resultados mostram que tratar a obesidade de forma padronizada pode não ser a melhor estratégia. Em vez disso, considerar as diferenças entre os sexos pode ajudar a:

  • Identificar riscos mais cedo
  • Personalizar tratamentos
  • Melhorar resultados clínicos

Ainda que os dados sejam iniciais e precisem de confirmação em outros grupos, eles já indicam um caminho importante para a chamada medicina personalizada.

O mesmo diagnóstico, riscos diferentes

A obesidade não age da mesma forma em todos os corpos. Enquanto os homens enfrentam maior risco ligado à gordura abdominal e metabolismo, as mulheres lidam com um impacto mais relacionado à inflamação e colesterol elevado.

Essa distinção reforça a importância de olhar além do peso e considerar o organismo como um todo. Afinal, compreender essas diferenças pode ser decisivo para prevenir complicações e promover uma saúde mais equilibrada.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn