Galáxia “Ervilha Verde” revela dois buracos negros supermassivos em uma rara fusão

Galáxia compacta revela dois núcleos galácticos ativos próximos. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Uma pequena galáxia que parece uma ervilha verde cósmica acaba de revelar um fenômeno extraordinário. Astrônomos identificaram dois buracos negros supermassivos ativos crescendo simultaneamente dentro do mesmo sistema galáctico, oferecendo uma rara oportunidade de observar como esses objetos podem evoluir durante uma fusão.

A descoberta foi feita na galáxia SDSS J162209.41+352107.5, também conhecida como J1622+3521. O sistema chamou atenção porque apresenta uma estrutura compacta e sinais de interação entre seus componentes. Agora, observações em diferentes faixas do espectro indicam que dois núcleos estão alimentando seus respectivos buracos negros ao mesmo tempo.

Uma galáxia pequena com um segredo gigantesco

As chamadas galáxias Ervilha Verde são relativamente pequenas, pobres em elementos pesados e apresentam intensa formação de estrelas. Por essas características, os astrônomos as consideram análogas próximas de alguns sistemas que existiam quando o universo ainda era muito jovem.

Isso transforma essas galáxias em verdadeiros laboratórios cósmicos. Estudá-las permite investigar processos que podem ter sido comuns nos primeiros períodos da história do universo, incluindo o nascimento e o crescimento de buracos negros supermassivos.

No caso de J1622+3521, imagens ópticas indicaram a presença de dois núcleos. Entretanto, somente essa característica não seria suficiente para afirmar que havia dois buracos negros ativos.

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Raios X entregaram a pista decisiva

Galáxia J1622+3521 apresenta dois núcleos ativos próximos. (Imagem: Konstantinos Kouroumpatzakis et al., arXiv (2026))

Para investigar o sistema, os pesquisadores combinaram observações do Observatório de Raios X Chandra com dados espectroscópicos obtidos pelo telescópio Keck.

O Chandra conseguiu distinguir duas fontes luminosas de raios X, separadas por aproximadamente 8,4 quiloparsecs, equivalentes a cerca de 27 mil anos luz. A posição dessas fontes coincide com os dois núcleos identificados na galáxia.

A espectroscopia acrescentou outra peça importante ao quebra-cabeça. Os dois núcleos apresentam linhas de emissão associadas à atividade de núcleos galácticos ativos, incluindo sinais de alta ionização e emissão de Balmer.

Além disso, os dois componentes apresentam praticamente o mesmo desvio para o vermelho, indicando que estão ligados ao mesmo sistema e não são simplesmente objetos distantes alinhados por acaso.

Dois gigantes crescendo durante uma colisão

Os pesquisadores estimaram massas próximas de 20 milhões de vezes a massa do Sol para cada buraco negro. A proximidade entre os dois núcleos e os sinais de atividade indicam que a galáxia pode estar sendo observada durante uma fase de interação.

Esse detalhe é especialmente importante porque fusões galácticas podem alterar o fluxo de gás em direção às regiões centrais das galáxias. Como os buracos negros supermassivos crescem ao capturar matéria, esse processo pode favorecer períodos de alimentação intensa.

A descoberta também é incomum porque muitos sistemas conhecidos com dois AGNs estão associados a galáxias mais massivas. J1622+3521, por outro lado, pertence a uma classe compacta e de baixa massa.

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A pista que pode levar ao universo primitivo

O estudo foi liderado por Konstantinos Kouroumpatzakis, da Academia de Ciências da República Tcheca, e disponibilizado no arXiv em 20 de julho de 2026. O trabalho ainda aparece como submetido para publicação, portanto não deve ser tratado como artigo já publicado em revista científica.

A descoberta coloca as galáxias Ervilha Verde em uma posição ainda mais interessante para estudar a evolução cósmica. Ao observar dois buracos negros supermassivos crescendo dentro de um sistema compacto, os astrônomos ganham uma espécie de janela para processos que podem ter desempenhado papel importante na formação das primeiras galáxias.

E há uma possibilidade ainda mais fascinante: parte da atividade dos dois buracos negros pode estar escondida por grandes quantidades de gás. Observações futuras em raios X de maior energia poderão revelar quanto dessa alimentação permanece invisível.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes