Em uma época dominada por medicamentos sofisticados e tecnologias farmacêuticas avançadas, é surpreendente perceber que um dos recursos mais estudados para aliviar a tosse infantil continua sendo um alimento produzido pelas abelhas. O mel e o própolis são exemplos de como a natureza desenvolveu mecanismos complexos de proteção muito antes dos laboratórios modernos existirem.
Embora sejam frequentemente colocados na mesma categoria, mel e própolis atuam de formas diferentes. Juntos, porém, formam uma combinação rica em compostos biologicamente ativos que ajuda a explicar o interesse crescente da comunidade científica.
Por que o mel consegue aliviar a tosse?
O mel possui uma característica chamada ação demulcente. Em termos simples, ele forma uma camada protetora sobre a mucosa da garganta, reduzindo o atrito e a irritação que estimulam os receptores da tosse.
Além disso, apresenta elevada osmolaridade, ou seja, concentra grandes quantidades de açúcares capazes de dificultar o crescimento de diversos microrganismos. Essa propriedade ajuda a criar um ambiente desfavorável para algumas bactérias.
Por isso, o mel tem sido estudado há anos como alternativa para o alívio sintomático da tosse, especialmente em infecções respiratórias leves.
O que torna o própolis tão especial?
Enquanto o mel atua principalmente sobre a mucosa, o própolis é uma substância resinosa produzida pelas abelhas a partir de compostos coletados de plantas.
Dentro da colmeia, ele funciona como uma verdadeira barreira sanitária. Sua composição inclui centenas de moléculas bioativas, com destaque para:
- Flavonoides
- Compostos fenólicos
- Ácidos aromáticos
- Terpenos
Essas substâncias vêm sendo investigadas por suas atividades antimicrobianas, antivirais, antioxidantes e imunomoduladoras.
Uma revisão publicada na revista International Journal of Molecular Sciences, por Simona Martinotti e colaboradores, em 11 de fevereiro de 2025, destacou que o própolis contém uma ampla variedade de compostos capazes de interagir com mecanismos biológicos relacionados à inflamação, resposta imune e atividade antimicrobiana.
Como os flavonoides podem agir contra o vírus?
Pesquisas indicam que alguns flavonoides presentes no própolis podem interferir em etapas importantes da infecção viral.
Entre os mecanismos estudados estão:
- Dificuldade de adesão do vírus à célula hospedeira
- Interferência em etapas da replicação viral
- Modulação da resposta inflamatória
Um estudo publicado na revista Scientific Reports, liderado por Iasmin Rosanne Silva Ferreira e publicado em 1º de julho de 2025, observou atividade antiviral e anti-inflamatória de formulações contendo própolis verde brasileiro em modelos experimentais relacionados ao SARS-CoV-2.
É importante destacar que esses resultados não significam que o própolis substitua tratamentos médicos, mas ajudam a compreender seu potencial biológico.
O alerta que todo pai e mãe precisa conhecer
Apesar dos benefícios associados ao mel, existe uma recomendação médica extremamente importante: bebês menores de 1 ano não devem consumir mel.
O motivo é o risco de botulismo infantil. O mel pode conter esporos da bactéria Clostridium botulinum, que normalmente não causam problemas em crianças maiores e adultos.
No entanto, em bebês, cuja microbiota intestinal ainda está em desenvolvimento, esses esporos podem germinar e produzir uma neurotoxina potencialmente grave.
Por isso, a orientação é clara: nenhuma quantidade de mel deve ser oferecida a crianças com menos de 12 meses de idade.
O que a ciência conclui até agora?
O mel e o própolis representam exemplos fascinantes de produtos naturais com propriedades biologicamente relevantes. O mel atua principalmente como um agente calmante da garganta, enquanto o própolis fornece uma rica combinação de flavonoides e compostos fenólicos que continuam sendo investigados pela ciência moderna.
Embora ainda existam perguntas a serem respondidas, as evidências atuais mostram que as abelhas desenvolveram mecanismos de proteção extremamente sofisticados, capazes de despertar interesse tanto na apicultura quanto na pesquisa biomédica.

