Estudo associa uso precoce de estatinas a risco 15% menor de demência 

Sinvastatina é usada no controle dos níveis de colesterol. (Imagem: Fala Ciência)

Um medicamento usado há décadas para controlar o colesterol pode ter uma relação importante com a saúde cerebral. Em pessoas recém diagnosticadas com diabetes tipo 2, o início do tratamento com estatinas no primeiro ano esteve associado a um risco 15% menor de desenvolver demência ao longo de dez anos.

O resultado chama atenção porque o diabetes tipo 2 já está relacionado a uma maior probabilidade de alterações cognitivas. Além disso, níveis elevados de colesterol LDL, conhecido como colesterol ruim, estão entre os fatores modificáveis considerados relevantes para a prevenção da demência.

No entanto, existe uma ressalva importante: os resultados mostram uma associação, mas não provam que as estatinas sejam capazes de prevenir diretamente a doença.

O momento do tratamento pode fazer diferença

Para investigar essa relação, pesquisadores analisaram registros nacionais da Dinamarca e acompanharam 132.585 pessoas que desenvolveram diabetes tipo 2 entre 2006 e 2019 e nunca haviam utilizado estatinas antes do diagnóstico.

Os participantes foram comparados de acordo com o momento em que começaram a terapia:

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  • Até um ano após o diagnóstico: risco relativo de demência 15% menor.
  • Entre um e cinco anos depois: risco relativo 10% menor.
  • Sem iniciar estatinas nos cinco anos seguintes: grupo de comparação.

Durante um acompanhamento médio de 7,1 anos, 2,7% dos participantes receberam um diagnóstico de demência.

A associação observada foi semelhante entre homens e mulheres. Além disso, os resultados indicaram uma possível vantagem para quem iniciou o tratamento mais cedo, embora a diferença entre os grupos não permita concluir que o medicamento seja responsável pela redução.

Diabetes e colesterol entram na mesma equação

Diabetes, colesterol e saúde vascular: a conexão explicada. (Imagem: Fala Ciência)

O diabetes tipo 2 pode afetar os vasos sanguíneos e está relacionado a alterações metabólicas que também podem contribuir para problemas cardiovasculares e cognitivos.

Por outro lado, o LDL elevado favorece o desenvolvimento de aterosclerose, processo caracterizado pelo acúmulo de placas nas artérias. Como o cérebro depende de uma circulação sanguínea adequada, a saúde vascular é considerada um dos componentes importantes na prevenção do declínio cognitivo.

As estatinas atuam principalmente reduzindo a produção de colesterol no fígado e, consequentemente, os níveis de LDL no sangue. Seu uso já é estabelecido para reduzir o risco de infarto e acidente vascular cerebral em pessoas com indicação clínica.

A possível relação com demência acrescenta uma questão que ainda precisa ser estudada.

Estudo observacional não significa prevenção comprovada

A pesquisa utilizou métodos estatísticos sofisticados para tentar reduzir alguns dos vieses comuns em estudos observacionais. Ainda assim, os participantes não foram distribuídos aleatoriamente para receber ou não estatinas.

Isso é fundamental para interpretar o resultado.

Pessoas que começam um tratamento precocemente podem apresentar outras características diferentes daquelas que adiam ou não iniciam a terapia. Portanto, não é possível descartar completamente a influência de outros fatores sobre o risco de demência.

Também não significa que todas as pessoas com diabetes tipo 2 devam começar a usar estatinas automaticamente. A indicação depende do risco cardiovascular individual, dos níveis de LDL, da idade, de outras condições de saúde e da avaliação médica.

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Os dados abrem uma nova frente de investigação

O estudo acompanhou uma população muito grande e encontrou uma associação consistente entre o uso precoce de estatinas após o diagnóstico de diabetes tipo 2 e uma menor ocorrência de demência.

Ainda assim, são necessários estudos adicionais para determinar se existe realmente um efeito protetor direto sobre o cérebro e quais mecanismos poderiam explicar essa relação.

A pesquisa foi apresentada no Congresso da ESC 2026 e publicada na revista científica The Lancet Regional Health: Europe, com Tummas Ternhamar como autor principal, em 2026.

Por enquanto, a principal mensagem é mais cuidadosa do que parece à primeira vista: controlar adequadamente os fatores de risco cardiovascular continua sendo importante para pessoas com diabetes tipo 2, enquanto a possível influência das estatinas sobre a demência permanece uma questão científica em investigação.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn