Esse remédio comum pode fazer você respirar cada vez pior 

Spray nasal pode causar efeito rebote na respiração. (Foto: Syda Productions via Canva)
Spray nasal pode causar efeito rebote na respiração. (Foto: Syda Productions via Canva)

Tudo começa de forma inocente. Um resfriado, uma crise alérgica ou alguns dias de nariz entupido. Então surge a solução que parece perfeita: algumas gotas ou jatos de um descongestionante nasal e, em poucos minutos, a respiração volta ao normal.

O problema é que essa sensação de alívio imediato pode esconder uma armadilha farmacológica pouco conhecida. Depois de alguns dias de uso contínuo, muitas pessoas percebem que o nariz volta a entupir rapidamente. E, sem perceber, passam a depender cada vez mais do produto para conseguir respirar.

Esse fenômeno tem nome: rinite medicamentosa, uma condição causada pelo uso excessivo de descongestionantes nasais vasoconstritores.

O segredo por trás do alívio quase instantâneo

Medicamentos como oximetazolina e nafazolina atuam diretamente sobre os receptores alfa-adrenérgicos presentes nos vasos sanguíneos da mucosa nasal.

Quando esses receptores são ativados, ocorre uma vasoconstrição, ou seja, os vasos sanguíneos diminuem de calibre. Como resultado, o inchaço da mucosa nasal reduz rapidamente e a passagem de ar fica mais livre.

É justamente esse mecanismo que produz a sensação de nariz desentupido em poucos minutos.

Porém, o organismo foi projetado para buscar equilíbrio. E é aí que o problema começa.

Quando o nariz para de responder ao medicamento?

Com o uso repetido por vários dias, os receptores alfa-adrenérgicos podem se tornar menos sensíveis aos estímulos.

Em outras palavras, o organismo passa a responder cada vez menos ao medicamento.

Como consequência, ocorre uma vasodilatação compensatória, fazendo com que os vasos sanguíneos do nariz permaneçam mais dilatados e a mucosa fique constantemente inchada.

O resultado é um ciclo difícil de interromper:

  • O nariz entope novamente;
  • A pessoa usa mais descongestionante;
  • O alívio dura menos tempo;
  • A congestão retorna com mais intensidade.

Muitas pessoas acreditam estar desenvolvendo uma nova gripe ou uma piora da rinite, quando na verdade estão enfrentando um efeito rebote provocado pelo próprio medicamento.

O que acontece com o nariz após o uso prolongado do spray?

Em junho de 2025, um estudo publicado na revista científica Journal of Pharmacy Practice, liderado por Martina Hagen, revisou as evidências disponíveis sobre descongestionantes nasais tópicos e rinite medicamentosa.

Os pesquisadores analisaram dados relacionados ao uso prolongado desses medicamentos e discutiram os mecanismos associados à chamada congestão de rebote, condição que pode surgir após o uso excessivo de vasoconstritores nasais. O trabalho também destacou a importância de respeitar o tempo recomendado de tratamento para reduzir o risco desse problema.

O risco não está apenas no nariz

Muita gente acredita que o descongestionante atua exclusivamente na mucosa nasal. No entanto, parte dessas substâncias pode ser absorvida pelo organismo.

Em determinadas situações, especialmente com uso excessivo ou prolongado, podem ocorrer efeitos sistêmicos como:

  • Aumento da pressão arterial;
  • Aceleração dos batimentos cardíacos;
  • Palpitações;
  • Agitação;
  • Dor de cabeça.

Por esse motivo, pessoas com doenças cardiovasculares precisam ter atenção especial ao uso desses medicamentos.

Como evitar a armadilha do efeito rebote

Os descongestionantes nasais podem ser úteis quando utilizados corretamente e por períodos curtos.

O problema surge quando o alívio imediato leva ao uso contínuo sem orientação profissional.

Se a congestão nasal persiste por vários dias, a melhor estratégia é investigar a causa do sintoma em vez de aumentar a frequência de aplicação do produto.

Afinal, aquilo que parece uma solução rápida pode acabar transformando um simples nariz entupido em um problema muito mais difícil de resolver.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn