Em alguns dias, tarefas simples parecem mais difíceis: você relê frases, perde o foco e esquece o que estava fazendo. Essa sensação de “névoa mental” não acontece apenas no cérebro isolado. Cada vez mais a ciência aponta que parte desse processo pode estar ligado ao que acontece no intestino, especialmente na atividade da microbiota intestinal.
O organismo funciona como um sistema integrado, no qual o intestino exerce um papel ativo na comunicação com o sistema nervoso central por meio do chamado eixo intestino-cérebro.
O intestino como centro metabólico de sinalização
O intestino abriga trilhões de microrganismos que formam a microbiota intestinal, responsável por funções que vão muito além da digestão.
Esses microrganismos participam de processos como:
- produção de metabólitos neuroativos
- modulação do sistema imunológico
- influência na produção de neurotransmissores
- comunicação com o sistema nervoso central
Um dos pontos mais estudados é a relação com substâncias como serotonina, GABA e ácidos graxos de cadeia curta, que impactam diretamente funções cerebrais como humor, atenção e memória.
Disbiose e inflamação
Quando há alteração na composição da microbiota, ocorre o que se chama de disbiose intestinal.
Esse desequilíbrio pode estar associado a:
- aumento da permeabilidade intestinal
- liberação de mediadores inflamatórios
- ativação de resposta imune persistente de baixo grau
Esse estado inflamatório leve e contínuo pode influenciar sistemas distantes do intestino, incluindo o cérebro.
Como isso chega ao cérebro
O cérebro é protegido pela barreira hematoencefálica, uma estrutura que controla o que entra no sistema nervoso central.
Em contextos de inflamação sistêmica leve, sinais metabólicos e imunológicos podem modular essa barreira e afetar o ambiente cerebral.
Na prática, isso pode estar associado a:
- dificuldade de concentração
- lentificação do pensamento
- fadiga mental
- sensação de “mente embaralhada”
O que a ciência confirma
Uma revisão publicada em Nature Reviews Microbiology (2025), por Takahiro E. Ohara e Elaine Y. Hsiao, descreve em detalhe como a microbiota intestinal influencia a atividade cerebral por meio de sinais metabólicos, imunológicos e neuroquímicos.
O trabalho destaca que o eixo intestino-cérebro é uma rede bidirecional complexa, onde sinais do intestino podem modular atividade cerebral e comportamento, enquanto o cérebro também influencia o intestino.
O cérebro não trabalha sozinho
A visão atual da neurociência não trata mais o cérebro como um órgão isolado. Ele faz parte de um sistema regulatório maior, no qual o intestino atua como um importante modulador biológico.
Isso significa que fatores como alimentação, padrão de microbiota e inflamação intestinal podem influenciar indiretamente processos cognitivos.
A sensação de esquecimento ou “névoa mental” não tem uma única causa, mas a ciência já reconhece que o eixo intestino-cérebro desempenha um papel relevante nesse processo.
O estudo de Ohara e Hsiao (2025, Nature Reviews Microbiology) mostra que a microbiota intestinal participa ativamente da comunicação com o sistema nervoso central, influenciando funções como cognição e comportamento.
Em termos simples: o cérebro pensa melhor quando o intestino está em equilíbrio.

