Esquecendo as coisas? O culpado pode ser o que você comeu no almoço

Disbiose pode afetar atenção e desempenho cognitivo. (Foto: Lesia Sementsova via Canva)
Disbiose pode afetar atenção e desempenho cognitivo. (Foto: Lesia Sementsova via Canva)

Em alguns dias, tarefas simples parecem mais difíceis: você relê frases, perde o foco e esquece o que estava fazendo. Essa sensação de “névoa mental” não acontece apenas no cérebro isolado. Cada vez mais a ciência aponta que parte desse processo pode estar ligado ao que acontece no intestino, especialmente na atividade da microbiota intestinal.

O organismo funciona como um sistema integrado, no qual o intestino exerce um papel ativo na comunicação com o sistema nervoso central por meio do chamado eixo intestino-cérebro.

O intestino como centro metabólico de sinalização

O intestino abriga trilhões de microrganismos que formam a microbiota intestinal, responsável por funções que vão muito além da digestão.

Esses microrganismos participam de processos como:

  • produção de metabólitos neuroativos
  • modulação do sistema imunológico
  • influência na produção de neurotransmissores
  • comunicação com o sistema nervoso central

Um dos pontos mais estudados é a relação com substâncias como serotonina, GABA e ácidos graxos de cadeia curta, que impactam diretamente funções cerebrais como humor, atenção e memória.

Disbiose e inflamação 

Quando há alteração na composição da microbiota, ocorre o que se chama de disbiose intestinal.

Esse desequilíbrio pode estar associado a:

  • aumento da permeabilidade intestinal
  • liberação de mediadores inflamatórios
  • ativação de resposta imune persistente de baixo grau

Esse estado inflamatório leve e contínuo pode influenciar sistemas distantes do intestino, incluindo o cérebro.

Como isso chega ao cérebro

O cérebro é protegido pela barreira hematoencefálica, uma estrutura que controla o que entra no sistema nervoso central.

Em contextos de inflamação sistêmica leve, sinais metabólicos e imunológicos podem modular essa barreira e afetar o ambiente cerebral.

Na prática, isso pode estar associado a:

  • dificuldade de concentração
  • lentificação do pensamento
  • fadiga mental
  • sensação de “mente embaralhada”

O que a ciência confirma 

Uma revisão publicada em Nature Reviews Microbiology (2025), por Takahiro E. Ohara e Elaine Y. Hsiao, descreve em detalhe como a microbiota intestinal influencia a atividade cerebral por meio de sinais metabólicos, imunológicos e neuroquímicos.

O trabalho destaca que o eixo intestino-cérebro é uma rede bidirecional complexa, onde sinais do intestino podem modular atividade cerebral e comportamento, enquanto o cérebro também influencia o intestino.

O cérebro não trabalha sozinho

A visão atual da neurociência não trata mais o cérebro como um órgão isolado. Ele faz parte de um sistema regulatório maior, no qual o intestino atua como um importante modulador biológico.

Isso significa que fatores como alimentação, padrão de microbiota e inflamação intestinal podem influenciar indiretamente processos cognitivos.

A sensação de esquecimento ou “névoa mental” não tem uma única causa, mas a ciência já reconhece que o eixo intestino-cérebro desempenha um papel relevante nesse processo.

O estudo de Ohara e Hsiao (2025, Nature Reviews Microbiology) mostra que a microbiota intestinal participa ativamente da comunicação com o sistema nervoso central, influenciando funções como cognição e comportamento.

Em termos simples: o cérebro pensa melhor quando o intestino está em equilíbrio.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn