Conheça a Síndrome do Sotaque Estrangeiro: A condição bizarra que muda a fala após lesão cerebral

Lesão cerebral pode alterar o sotaque da fala. (Foto: Fala Ciência via ChatGPT)
Lesão cerebral pode alterar o sotaque da fala. (Foto: Fala Ciência via ChatGPT)

Imagine acordar após um acidente vascular cerebral e perceber que continua falando sua língua materna, mas as pessoas insistem em dizer que seu sotaque parece ser de outro país. Embora pareça um enredo de ficção, essa condição existe e recebe o nome de Síndrome do Sotaque Estrangeiro (Foreign Accent Syndrome, FAS).

Trata-se de um distúrbio neurológico extremamente raro, geralmente associado a lesões cerebrais que afetam as áreas responsáveis pelo planejamento e pela coordenação da fala. O indivíduo não aprende um novo idioma nem adquire um sotaque verdadeiro. Na realidade, pequenas alterações na velocidade, na entonação e na articulação das palavras fazem com que os ouvintes interpretem sua fala como estrangeira.

A produção da fala depende de uma rede complexa de regiões cerebrais que trabalham em perfeita sincronia. Quando ocorre uma lesão, especialmente após um acidente vascular cerebral (AVC), traumatismo craniano ou outras doenças neurológicas, essa coordenação pode ser alterada.

Como consequência, surgem mudanças discretas na pronúncia dos sons, na duração das sílabas, na melodia da fala e na posição da língua durante a articulação. Isoladamente, essas alterações parecem pequenas, mas, em conjunto, criam uma impressão auditiva semelhante à de um sotaque estrangeiro.

Apesar do nome, a pessoa não passa a dominar outro idioma. O que muda é a maneira como sua fala é percebida por quem a escuta.

O que um estudo recente mostrou

Um relato de caso publicado na Revista Científica de la Sociedad Española de Enfermería Neurológica (English Edition), em 2025, descreveu a evolução de um paciente que desenvolveu a Síndrome do Sotaque Estrangeiro após um AVC isquêmico. O trabalho, conduzido por Ana Teresa Domínguez Martín, recebeu o título Foreign Accent Syndrome: A Case Report.

O paciente apresentou alterações na entonação, no ritmo e na velocidade da fala, fazendo com que familiares percebessem um sotaque semelhante ao inglês, embora ele continuasse falando espanhol. Após investigação clínica, foi confirmado que o quadro estava relacionado à lesão cerebral provocada pelo AVC. A evolução foi favorável, e cerca de três meses depois o paciente recuperou seu padrão habitual de fala.

O estudo também destaca que, além das alterações na comunicação, a síndrome pode provocar impacto emocional e conflitos de identidade, já que muitos pacientes sentem estranhamento ao perceber que sua própria voz passou a soar diferente.

Por que a síndrome é tão rara

A Síndrome do Sotaque Estrangeiro é considerada uma condição incomum porque depende de lesões muito específicas em circuitos cerebrais ligados ao controle motor da fala. Nem todo AVC ou traumatismo cerebral provoca essa alteração.

Além disso, os especialistas acreditam que diferentes áreas do cérebro podem estar envolvidas, tornando cada caso único e dificultando a identificação de um único mecanismo responsável pela síndrome.

A recuperação é possível?

O prognóstico varia conforme a causa da lesão e sua extensão. Em alguns pacientes, o padrão normal da fala retorna ao longo dos meses, especialmente com fonoaudiologia e reabilitação neurológica. Em outros casos, parte das alterações pode persistir, exigindo acompanhamento contínuo.

Embora rara, essa síndrome mostra como pequenas mudanças na organização dos movimentos da fala podem modificar profundamente a forma como uma pessoa é percebida pelos outros.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn

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