Colisão de buracos negros supermassivos pode ser vista da Terra em breve

Colisão cósmica rara pode gerar ondas gravitacionais detectáveis da Terra (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
Colisão cósmica rara pode gerar ondas gravitacionais detectáveis da Terra (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

O universo está repleto de eventos extremos, mas poucos são tão impressionantes quanto a possível colisão entre dois buracos negros supermassivos prevista para acontecer em cerca de 100 anos. Embora esse prazo pareça distante para nós, em escala astronômica trata-se de algo extremamente próximo.

A descoberta chamou atenção da comunidade científica porque o impacto poderá gerar ondas gravitacionais poderosas, capazes de serem detectadas até mesmo da Terra. Isso significa que os pesquisadores poderão observar, de forma inédita, um dos fenômenos mais violentos do cosmos em tempo quase real.

O estudo, liderado por pesquisadores alemães e publicado na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, analisou sinais vindos da galáxia Markarian 501, conhecida por abrigar um objeto ultrabrilhante chamado blazar.

O que os cientistas encontraram?

Inicialmente, acreditava-se que apenas um único buraco negro supermassivo alimentava esse blazar. No entanto, observações mais detalhadas revelaram algo ainda mais impressionante: havia um segundo jato de energia escondido no sistema. Isso indicava a presença de dois gigantes cósmicos orbitando um ao outro. Os principais dados observados foram:

  • Dois buracos negros com massa superior a 100 milhões de vezes a massa do Sol;
  • Distância entre eles considerada pequena em termos astronômicos;
  • Movimento orbital indicando aproximação gradual;
  • Possibilidade real de fusão em aproximadamente um século.

Além disso, os cientistas utilizaram 83 conjuntos de dados obtidos pelo Very Long Baseline Array (VLBA), uma rede composta por 10 radiotelescópios, o que permitiu confirmar a estrutura incomum do sistema.

Um alinhamento raro ajudou a confirmar a descoberta

Posteriormente, surgiu uma nova evidência que fortaleceu ainda mais a hipótese. Os dois buracos negros se alinharam de forma favorável, permitindo que a gravidade de um deles curvasse a luz emitida pelo outro.

Esse fenômeno, conhecido como lente gravitacional, criou uma estrutura visual quase circular, considerada uma forte assinatura da presença de dois objetos extremamente massivos interagindo.

Esse tipo de evento é raro e extremamente valioso para a astronomia, pois ajuda a compreender como galáxias evoluem e como seus núcleos ativos se comportam ao longo de milhões de anos.

O que pode acontecer quando eles finalmente colidirem

Atualmente, a separação entre os dois objetos está estimada entre 250 e 540 vezes a distância entre a Terra e o Sol. Apesar de parecer enorme, isso é relativamente pequeno quando falamos de estruturas galácticas.

Com o passar do tempo, essa distância deve diminuir até que aconteça a fusão. Quando isso ocorrer, haverá a liberação de uma quantidade gigantesca de energia na forma de ondas gravitacionais.

Essas ondulações no espaço-tempo poderão ser registradas por instrumentos na Terra, oferecendo dados preciosos sobre a física dos buracos negros e sobre a própria estrutura do universo.

Por isso, essa possível colisão não representa apenas um espetáculo cósmico, mas também uma oportunidade histórica para a ciência entender melhor os eventos mais extremos já observados no espaço.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes