Cientistas descobrem como a vitamina A ajuda a construir a visão humana 

Vitamina A ajuda a formar a visão antes do nascimento. (Foto: Getty Images via Canva)

Durante décadas, cientistas tentaram entender como o olho humano consegue formar uma região especializada capaz de produzir uma visão extremamente detalhada. Agora, uma descoberta da Universidade Johns Hopkins revelou que a resposta envolve uma combinação precisa entre uma molécula derivada da vitamina A e os hormônios da tireoide.

O achado ajuda a explicar como a fóvea, uma pequena área localizada no centro da retina responsável pela visão de alta definição, se desenvolve antes do nascimento. Além disso, a descoberta pode contribuir para novas estratégias de tratamento contra doenças que comprometem a visão, como a degeneração macular.

A pequena região do olho responsável pelos grandes detalhes

A retina funciona como uma espécie de sensor biológico que transforma a luz em sinais enviados ao cérebro. Dentro dela existem células especializadas chamadas fotorreceptores cones, responsáveis pela visão durante o dia e pela percepção das cores.

Os seres humanos possuem três tipos principais de cones:

  • Cones azuis, sensíveis a comprimentos de onda menores.
  • Cones verdes, importantes para diferenciar diversas tonalidades.
  • Cones vermelhos, essenciais para perceber comprimentos de onda maiores.

Entretanto, a fóvea, região central da retina responsável pela visão mais precisa, apresenta uma organização diferente. Nela predominam cones vermelhos e verdes, uma característica que permite enxergar detalhes pequenos, como letras, rostos e objetos distantes.

Organoides revelam uma transformação inesperada na retina

Para descobrir como essa estrutura é formada, pesquisadores utilizaram organoides de retina, pequenos tecidos produzidos em laboratório a partir de células humanas que imitam o desenvolvimento ocular.

Esse modelo permitiu acompanhar, durante meses, as mudanças que acontecem nas células da retina humana.

A equipe observou que, entre a 10ª e a 12ª semana de desenvolvimento fetal, alguns cones azuis aparecem inicialmente na região da futura fóvea. Porém, pouco tempo depois, essas células passam por uma transformação e assumem características de cones vermelhos e verdes.

A mudança acontece por meio de dois mecanismos coordenados:

  • O ácido retinoico, molécula produzida a partir da vitamina A, controla a formação dos cones azuis.
  • Os hormônios da tireoide participam da conversão das células restantes para os tipos especializados da fóvea.

Essa descoberta mostra que as células da retina não possuem uma identidade completamente fixa desde o início. Elas podem modificar seu destino durante o desenvolvimento para construir uma visão mais eficiente.

Estudo da PNAS muda uma antiga explicação sobre a formação da retina

A pesquisa foi publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) em 2026, liderada por Katarzyna A. Hussey, com participação de Kiara C. Eldred, Brian Guy, Clayton P. Santiago, Jingliang Simon Zhang, Ian Glass, Thomas A. Reh, Seth Blackshaw, Loyal A. Goff e Robert J. Johnston.

O estudo, intitulado “A mechanism of human foveal cone subtype patterning and cell fate transition”, apresentou evidências de que os cones azuis presentes inicialmente na fóvea não simplesmente migram para outras áreas, como sugeria uma hipótese antiga.

Em vez disso, os pesquisadores identificaram que essas células permanecem no local e mudam progressivamente de característica para formar a organização especializada necessária para uma visão central mais precisa.

Descoberta pode ajudar futuras terapias para recuperar visão

Além de revelar um processo fundamental da biologia humana, o estudo abre novas possibilidades para a medicina regenerativa.

Doenças como a degeneração macular causam danos justamente na região central da retina, afetando a capacidade de enxergar detalhes. Atualmente, muitas dessas condições ainda apresentam limitações terapêuticas.

Compreender como os fotorreceptores humanos são formados pode ajudar cientistas a desenvolver células retinianas produzidas em laboratório para futuras terapias de reposição celular.

Apesar de esses tratamentos ainda estarem em fase experimental, a pesquisa representa um avanço importante porque mostra quais sinais químicos são necessários para criar células especializadas da visão.

A descoberta também revela como nutrientes e hormônios trabalham juntos durante o desenvolvimento humano. A vitamina A, conhecida há décadas por sua relação com a saúde ocular, agora ganha um novo papel: participar de uma complexa programação biológica que ajuda a construir a capacidade de enxergar o mundo com detalhes.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn