Cálcio e vitamina D funcionam? Novo estudo surpreende mercado de suplementos

Quedas podem exigir mais do que suplementação. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Quedas podem exigir mais do que suplementação. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Por décadas, cálcio e vitamina D foram considerados aliados indispensáveis para a saúde óssea. Muitas pessoas passaram a consumir esses suplementos diariamente acreditando que eles poderiam reduzir o risco de quedas, evitar fraturas e preservar a independência durante o envelhecimento.

No entanto, uma nova análise científica de grande porte sugere que essa estratégia pode não oferecer os benefícios que muitos imaginavam.

Os resultados chamaram atenção porque envolvem uma das revisões mais abrangentes já realizadas sobre o tema, reunindo dados de mais de 150 mil participantes.

Uma crença antiga colocada à prova

Com o avanço da idade, o risco de quedas e fraturas aumenta significativamente. Fraturas de quadril, por exemplo, podem comprometer a mobilidade, reduzir a qualidade de vida e aumentar a necessidade de cuidados prolongados.

Por isso, a suplementação de cálcio e vitamina D se tornou uma recomendação comum em diversos países.

Mas será que ela realmente funciona para a maioria das pessoas?

O que os pesquisadores descobriram

Em junho de 2026, a revista The BMJ publicou uma revisão sistemática e meta-análise liderada por Olivier Massé, reunindo dados de 69 ensaios clínicos randomizados e 153.902 adultos.

O objetivo foi avaliar se suplementos de cálcio, vitamina D ou a combinação de ambos eram capazes de reduzir quedas e fraturas em adultos mais velhos.

Após analisar cuidadosamente os resultados, os pesquisadores encontraram um padrão consistente: para a maioria dos participantes, os suplementos apresentaram pouco ou nenhum benefício clinicamente relevante na prevenção de fraturas.

Os resultados foram semelhantes para:

  • Suplementação isolada de cálcio
  • Suplementação isolada de vitamina D
  • Uso combinado de cálcio e vitamina D

Além disso, os benefícios na prevenção de quedas também se mostraram mínimos ou inexistentes na maior parte das análises.

Um resultado que se repetiu em diferentes grupos

Um dos aspectos mais interessantes do estudo foi a consistência dos achados.

Os pesquisadores avaliaram diferentes características dos participantes, incluindo:

  • Idade
  • Sexo
  • Histórico de quedas
  • Fraturas anteriores
  • Consumo alimentar de cálcio

Mesmo após essas análises adicionais, os resultados permaneceram semelhantes.

Isso aumenta a confiança de que os benefícios da suplementação rotineira podem ser menores do que se acreditava para a população geral de idosos.

Isso significa que ninguém deve tomar suplementos?

Não.

É importante destacar que o estudo não avaliou pessoas com todas as condições clínicas possíveis. Algumas situações específicas continuam exigindo avaliação individualizada.

Pacientes com osteoporose, doenças que afetam o metabolismo ósseo, deficiência comprovada de vitamina D ou uso de determinados medicamentos podem necessitar de estratégias diferentes.

Por esse motivo, decisões sobre suplementação devem sempre ser discutidas com profissionais de saúde.

O foco pode estar em outras estratégias

Enquanto os suplementos seguem sendo debatidos, outras abordagens já demonstraram resultados mais consistentes na prevenção de quedas.

Entre elas estão:

  • Exercícios de fortalecimento muscular
  • Treinamento de equilíbrio
  • Programas personalizados de prevenção de quedas
  • Avaliação de fatores de risco ambientais

Essas medidas atuam diretamente sobre a capacidade funcional do indivíduo e podem trazer benefícios que vão além da saúde óssea.

A revisão publicada no The BMJ por Olivier Massé em 2026 não encerra a discussão sobre cálcio e vitamina D, mas lança uma mensagem importante: quando o objetivo é prevenir quedas e fraturas, a solução pode ser mais complexa do que simplesmente tomar um comprimido todos os dias.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn