A fase lútea e a retenção de líquidos: O que acontece quimicamente nos seus tecidos 7 dias antes da menstruação 

A fase lútea altera a distribuição de líquidos. (Foto: Iurii Maksymiv via Canva)

Faltando cerca de sete dias para a menstruação, muitas mulheres percebem que o corpo parece diferente. As roupas ficam mais justas, os anéis apertam os dedos e a sensação de inchaço pode surgir mesmo sem mudanças importantes na alimentação. Embora esse fenômeno seja frequentemente atribuído apenas ao excesso de sal, a explicação é muito mais sofisticada. Na realidade, trata-se de uma série de reações hormonais e químicas que modificam o comportamento dos vasos sanguíneos, dos eletrólitos e da água presente nos tecidos.

A fase lútea, que começa logo após a ovulação, prepara o organismo para uma possível gestação. Nesse período, os hormônios femininos promovem adaptações importantes, muitas delas responsáveis pela conhecida retenção de líquidos.

Como os hormônios alteram o equilíbrio da água no organismo

Após a ovulação, ocorre um aumento significativo da progesterona, enquanto o estrogênio permanece em níveis relativamente elevados. Esses hormônios atuam em diferentes órgãos, incluindo rins, vasos sanguíneos e tecido conjuntivo.

Uma das consequências é a modulação do sistema renina, angiotensina e aldosterona, responsável por controlar a quantidade de sódio e água no organismo. Como resultado, os rins passam a conservar mais líquido temporariamente.

Ao mesmo tempo, pequenas alterações na permeabilidade dos capilares facilitam a saída de parte da água do interior dos vasos para o espaço intersticial, região localizada entre as células. Esse deslocamento não representa uma doença, mas uma resposta fisiológica do organismo ao ciclo menstrual.

É justamente esse líquido acumulado entre os tecidos que provoca a sensação de peso e aumento de volume em determinadas regiões do corpo.

Por que o inchaço aparece em algumas partes e não em outras?

A retenção de líquidos não ocorre de maneira uniforme. Algumas regiões apresentam maior tendência ao acúmulo devido à circulação local, à ação da gravidade e às características dos tecidos.

As áreas mais frequentemente afetadas incluem:

  • Abdômen
  • Mamas
  • Pernas
  • Tornozelos
  • Mãos

Além do aumento do volume, muitas mulheres também relatam sensibilidade nas mamas, sensação de pele esticada e pequenas oscilações no peso corporal. Essas mudanças costumam desaparecer naturalmente com o início da menstruação, quando ocorre a redução dos níveis hormonais.

A relação entre hormônios e retenção de líquidos 

Um estudo publicado na revista Scientific Reports, em 1º de junho de 2026, conduzido pela pesquisadora Yuki Takano, analisou mulheres com ciclos menstruais regulares para comparar a percepção de inchaço com medidas objetivas da quantidade de água corporal.

Os pesquisadores observaram que, embora muitas participantes não percebessem grandes diferenças nos sintomas ao longo do ciclo, exames de composição corporal identificaram aumento da água em regiões específicas, principalmente no tronco e no braço direito, durante a fase lútea média e tardia. Os resultados mostram que alterações na distribuição dos líquidos podem ocorrer mesmo quando a sensação subjetiva de inchaço é discreta, indicando que o organismo passa por mudanças fisiológicas mensuráveis antes da menstruação.

Há maneiras de aliviar esse desconforto?

Embora a retenção de líquidos faça parte da fisiologia do ciclo menstrual, alguns hábitos podem contribuir para diminuir o desconforto:

  • Beber água regularmente, favorecendo o equilíbrio dos líquidos corporais.
  • Praticar atividade física, estimulando a circulação sanguínea e linfática.
  • Reduzir o consumo de alimentos ricos em sódio e ultraprocessados.
  • Priorizar alimentos ricos em potássio, como frutas e vegetais.
  • Dormir bem, já que o sono participa da regulação hormonal.

Na maioria das mulheres, essas alterações desaparecem espontaneamente após o início da menstruação. Entretanto, quando o inchaço é intenso, persistente ou acompanhado por dor importante, é recomendável buscar avaliação médica para investigar outras possíveis causas.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn