Uma descoberta científica chamou atenção ao revelar que uma bactéria normalmente encontrada na boca pode estar associada ao desenvolvimento da endometriose, doença que afeta milhões de mulheres em todo o mundo.
O estudo, publicado na revista científica Science Translational Medicine e conduzido por pesquisadores da Universidade de Nagoya, no Japão, identificou a presença da bactéria Fusobacterium nucleatum em uma parcela expressiva das mulheres com endometriose avaliadas.
Os resultados mostraram que o microrganismo estava presente em aproximadamente 64% das pacientes com a doença, enquanto apareceu em menos de 10% das mulheres sem endometriose, indicando uma diferença bastante significativa entre os grupos analisados.
Esses achados fortalecem a hipótese de uma possível ligação entre a bactéria e o ambiente inflamatório da endometriose, abrindo espaço para novas linhas de investigação voltadas a estratégias terapêuticas mais direcionadas no futuro.
O que é endometriose?
A endometriose acontece quando um tecido semelhante ao revestimento interno do útero cresce fora do local correto.
Esse tecido pode atingir ovários, trompas, intestino e outras regiões da pelve, causando sintomas como:
- Dor intensa
- Cólicas fortes
- Dor durante relações sexuais
- Alterações menstruais
- Infertilidade
A doença afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva e muitas pacientes levam anos até receber o diagnóstico.
Como uma bactéria da boca pode chegar ao útero?
A bactéria Fusobacterium nucleatum vive naturalmente na cavidade oral. Porém, em algumas situações, ela pode entrar na corrente sanguínea e atingir outras partes do corpo.
Segundo os pesquisadores, problemas como gengivite e doença periodontal podem facilitar essa disseminação.
Embora a bactéria não faça parte da microbiota normal do endométrio, o estudo mostrou uma presença muito maior dela em mulheres com endometriose.
Além disso, os cientistas observaram que o microrganismo parece criar um ambiente inflamatório capaz de favorecer o crescimento das lesões da doença.
Inflamação aparece como peça central da doença
Os pesquisadores identificaram que a bactéria ativa mecanismos ligados à inflamação e à fibrose no organismo.
Um dos pontos que mais chamou atenção foi o aumento da proteína TAGLN, relacionada a células envolvidas em:
- Cicatrização
- Inflamação crônica
- Formação de fibrose
As mulheres com endometriose apresentaram níveis mais elevados dessa proteína, especialmente nas lesões ovarianas.
Os testes mostraram ainda que o aumento da TAGLN deixou as células com maior capacidade de:
- Crescer
- Migrar
- Se aderir aos tecidos
Essas características estão associadas à progressão da endometriose.
Até bactérias mortas causaram reação inflamatória
Outro resultado que surpreendeu os cientistas foi que até bactérias mortas de Fusobacterium nucleatum conseguiram estimular processos inflamatórios.
O estudo observou aumento da molécula TGF-β1, ligada à fibrose, além da produção elevada de IL-6, substância inflamatória frequentemente associada ao crescimento celular desregulado.
Também houve aumento de células imunológicas chamadas macrófagos M2, que podem favorecer o ambiente inflamatório relacionado à doença.
Antibióticos reduziram as lesões em animais
Para entender melhor o papel da bactéria, os pesquisadores realizaram testes em camundongos.
Os animais infectados apresentaram:
- Mais lesões endometrióticas
- Lesões maiores
- Mais inflamação
- Maior presença de células TAGLN-positivas
Depois disso, os cientistas utilizaram antibióticos como metronidazol e cloranfenicol.
Após o tratamento, houve:
- Redução da inflamação
- Diminuição das lesões
- Queda da proteína TAGLN
- Eliminação da bactéria
Os resultados sugerem que combater o microrganismo pode futuramente se tornar uma estratégia complementar no tratamento da endometriose.
Descoberta pode ajudar no futuro diagnóstico da doença
Além de abrir caminhos para novas terapias, o estudo publicado na Science Translational Medicine também ajuda cientistas a entender melhor como a endometriose se desenvolve.
Atualmente, o diagnóstico costuma ser demorado e muitas vezes depende de cirurgia.
Por isso, identificar bactérias, proteínas inflamatórias e outros marcadores biológicos pode facilitar diagnósticos mais rápidos e menos invasivos no futuro.

