Você já sentiu tontura em um corredor de supermercado? Entenda o motivo 

Luzes e movimento podem causar tontura. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Você já entrou em um supermercado, shopping ou estação de metrô movimentada e, de repente, sentiu uma tontura estranha, como se o ambiente estivesse “girando” ou seu corpo estivesse instável? Em muitos casos, esse desconforto aparece de forma inesperada, sem um motivo aparente.  No entanto, ela pode estar relacionada à forma como o cérebro interpreta um excesso de informações visuais.

Esse fenômeno, conhecido como tontura induzida por estímulos visuais ou vertigem visual, ocorre quando o cérebro tem dificuldade para integrar os sinais enviados pelos olhos, pelo ouvido interno e pelos músculos e articulações, responsáveis pelo equilíbrio. O resultado pode ser uma sensação de instabilidade que aparece justamente em locais com muitas luzes, pessoas ou objetos em movimento.

Olhos “enganam” o sistema de equilíbrio

Manter o equilíbrio depende do trabalho conjunto de três sistemas principais.

  • Visão, que informa onde estamos no ambiente.
  • Sistema vestibular, localizado no ouvido interno, que detecta os movimentos da cabeça.
  • Sistema proprioceptivo, que informa a posição do corpo.

Em condições normais, essas informações são integradas pelo cérebro de maneira harmoniosa. Porém, quando há um grande volume de estímulos visuais, como corredores repletos de produtos, telas piscando ou multidões caminhando em diferentes direções, algumas pessoas passam a depender excessivamente da visão para manter o equilíbrio.

Esse conflito sensorial pode provocar:

  • Tontura
  • Sensação de flutuar
  • Desequilíbrio
  • Náuseas
  • Desconforto ao caminhar

Na maioria dos casos, o desconforto desaparece em pouco tempo. Porém, em pessoas com alterações no sistema vestibular ou com a chamada Tontura Postural Perceptual Persistente (PPPD), os sintomas podem se tornar frequentes e duradouros. 

Novas pesquisas ajudam a explicar o fenômeno

Um estudo publicado na revista Neural Plasticity, em 8 de abril de 2026, liderado por Jin Ju Kang, investigou como o cérebro processa os sinais visuais e vestibulares em pessoas com PPPD, um dos distúrbios mais comuns associados à tontura desencadeada por movimento visual.

Utilizando exames de ressonância magnética funcional, os pesquisadores observaram alterações nas redes cerebrais responsáveis pela integração entre visão e equilíbrio. Os resultados sugerem que esses pacientes apresentam uma maior dependência das informações visuais, tornando o cérebro mais sensível a ambientes movimentados e ricos em estímulos. Esse mecanismo ajuda a explicar por que locais aparentemente comuns podem desencadear tontura intensa em algumas pessoas.

Nem sempre o problema está no ouvido

Excesso de estímulos visuais afeta o equilíbrio. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Muitas pessoas acreditam que toda tontura seja consequência de um problema no labirinto. No entanto, isso nem sempre acontece.

Em diversos casos, o ouvido interno funciona normalmente. O desconforto surge porque o cérebro passa a interpretar os estímulos visuais de maneira diferente, criando uma sensação de movimento mesmo quando o corpo está parado.

Por isso, ambientes como:

  • Supermercados
  • Shopping centers
  • Escadas rolantes
  • Telas grandes e videogames
  • Trânsito intenso

podem desencadear sintomas em pessoas mais sensíveis.

Identificar a causa faz toda a diferença

Sentir tontura ocasionalmente após uma exposição intensa a luzes e movimentos não significa, necessariamente, que exista uma doença grave. Entretanto, quando o problema se torna frequente ou interfere nas atividades do dia a dia, é importante procurar avaliação médica.

O diagnóstico permite diferenciar alterações vestibulares, enxaqueca vestibular, problemas neurológicos e condições como a PPPD, possibilitando um tratamento direcionado, que pode incluir reabilitação vestibular, exercícios específicos e acompanhamento multiprofissional.

Entender como o cérebro combina as informações da visão e do equilíbrio ajuda a explicar um sintoma que, para muitos pacientes, parecia não ter explicação. A ciência mostra que, em alguns casos, o verdadeiro “gatilho” da tontura não está no ouvido, mas na forma como o cérebro interpreta o mundo ao seu redor.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn