Guaraná em pó ou café? A diferença começa muito antes da cafeína

Taninos podem influenciar o efeito do guaraná. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

O café costuma ser a primeira escolha de quem precisa espantar o sono. No entanto, muitas pessoas afirmam sentir que o guaraná em pó mantém a disposição por um período mais longo. Mas essa impressão tem fundamento científico ou é apenas uma percepção?

A resposta está no meio do caminho. Tanto o café quanto o guaraná são fontes naturais de cafeína, a substância responsável pelo efeito estimulante. Entretanto, o guaraná apresenta uma composição química diferente, que pode influenciar a maneira como essa cafeína fica disponível no organismo. Embora essa hipótese seja considerada plausível, os pesquisadores ainda buscam evidências mais robustas para confirmar esse mecanismo em humanos.

A diferença não está apenas na cafeína

O guaraná (Paullinia cupana) é uma planta nativa da Amazônia cujas sementes estão entre as fontes naturais mais concentradas de cafeína.

Além dela, o guaraná também contém taninos, catequinas, epicatequinas e proantocianidinas, compostos vegetais com atividade antioxidante.

Esses componentes formam uma matriz natural bastante diferente da encontrada no café. Por isso, alguns pesquisadores acreditam que a interação entre essas substâncias possa influenciar a velocidade com que a cafeína é liberada e absorvida pelo organismo.

Essa é uma das hipóteses que tenta explicar por que muitas pessoas relatam uma sensação de energia mais estável após consumir guaraná.

As pesquisas ainda estão construindo essa resposta

Embora essa percepção seja bastante comum, a ciência ainda não concluiu que o guaraná produz um efeito mais prolongado do que o café.

Uma revisão publicada na revista Cogent Food & Agriculture, em 24 de fevereiro de 2026, liderada por Joaquim Dotto Matondo, reuniu estudos sobre bebidas energéticas e descreveu o guaraná como uma importante fonte natural de cafeína e compostos bioativos, incluindo catequinas, epicatequinas e taninos.

Os autores destacam que essa composição pode influenciar as propriedades fisiológicas do guaraná. No entanto, a revisão também mostra que ainda faltam estudos clínicos comparando diretamente o guaraná em pó e o café em doses equivalentes de cafeína, o que impede afirmar com certeza que um mantenha a energia por mais tempo que o outro.

Cada organismo responde de maneira diferente

Outro fator importante é que o metabolismo da cafeína varia bastante entre as pessoas.

A duração dos efeitos depende de fatores como:

  • Genética.
  • Idade.
  • Qualidade do sono.
  • Uso de medicamentos.
  • Frequência de consumo de cafeína.

Por isso, enquanto algumas pessoas sentem os efeitos do guaraná durante várias horas, outras praticamente não percebem diferença em relação ao café.

Mais importante do que escolher entre café ou guaraná

Tanto o café quanto o guaraná podem fazer parte de uma alimentação equilibrada quando consumidos com moderação. O principal cuidado está na quantidade total de cafeína ingerida ao longo do dia, principalmente quando há consumo simultâneo de energéticos, refrigerantes, suplementos ou chás estimulantes.

Até o momento, a ciência indica que o guaraná possui uma composição química única, capaz de influenciar seus efeitos no organismo. Porém, ainda são necessários estudos comparativos de alta qualidade para confirmar se essa característica realmente faz com que sua ação seja mais duradoura do que a do café.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn