Ajuste na caminhada reduz dor da artrite, aponta pesquisa 

Mudar a forma de andar reduz dor no joelho. (Foto: Africa Images via Canva)
Mudar a forma de andar reduz dor no joelho. (Foto: Africa Images via Canva)

A dor da osteoartrite no joelho está entre as principais causas de limitação de movimento em adultos, especialmente após os 40 anos. Com o desgaste progressivo da cartilagem articular, atividades simples do dia a dia podem se tornar desafiadoras. No entanto, um novo estudo traz uma abordagem inesperada: pequenas mudanças na forma de caminhar podem aliviar a dor e até proteger as articulações.

O estudo, publicado em The Lancet Rheumatology (2025) e liderado por Scott Uhlrich e equipe, avaliou uma abordagem não invasiva fundamentada na biomecânica com o objetivo de diminuir a carga excessiva sobre o joelho.

A lógica por trás da mudança na marcha

O princípio do estudo é simples, mas poderoso: a forma como os pés se posicionam ao caminhar influencia diretamente a carga aplicada sobre o joelho.

Em pessoas com osteoartrite, essa carga excessiva acelera o desgaste da articulação. Assim, pequenos ajustes no ângulo do pé durante a caminhada podem redistribuir forças e reduzir o impacto na região afetada.

Esse tipo de intervenção não é totalmente novo na ciência, porém este estudo se destacou por testar uma abordagem personalizada e controlada por placebo, algo raro nesse tipo de pesquisa.

Intervenção personalizada

Um dos pontos centrais do estudo foi a individualização da técnica. Nem todas as pessoas respondem da mesma forma à alteração da marcha.

Durante a pesquisa, cada participante foi avaliado para identificar qual ajuste geraria menor pressão no joelho:

  • Rotação leve dos pés para dentro
  • Rotação leve dos pés para fora
  • Ajustes de 5° ou 10° no ângulo de caminhada

Essa análise permitiu criar um padrão de caminhada sob medida, em vez de aplicar uma regra única para todos.

Como resultado, o grupo que recebeu a intervenção personalizada apresentou melhor controle da dor e sinais de menor degeneração da cartilagem.

O que o estudo observou após um ano

Ao longo de 12 meses, os participantes passaram por treinamento e acompanhamento contínuo. Entre os principais achados, destacam-se:

  • Redução da dor no joelho semelhante ao efeito de analgésicos comuns
  • Menor progressão do desgaste da cartilagem em exames de imagem
  • Melhora funcional na locomoção diária
  • Alta adesão ao novo padrão de caminhada

Além disso, os resultados sugerem que a intervenção pode ter impacto não apenas sintomático, mas também estrutural na articulação.

Um tratamento sem medicamentos ou cirurgia

Um dos aspectos mais promissores da abordagem é que ela não depende de medicamentos, cirurgias ou dispositivos contínuos.

Em vez disso, a técnica utiliza o treinamento da forma de caminhar, realizado após uma fase inicial de acompanhamento supervisionado. Os participantes aprenderam a manter o novo padrão de caminhada por cerca de 20 minutos diários.

Com o tempo, o movimento se tornou automático, integrando-se à rotina sem necessidade de equipamentos permanentes.

Limitações e futuro da técnica

Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores destacam que a técnica ainda não está pronta para uso amplo. Isso porque a personalização exige equipamentos sofisticados de análise de movimento.

No entanto, novas tecnologias estão surgindo, como:

  • Sensores vestíveis
  • Análise por vídeo de smartphone
  • “Sapatos inteligentes” para correção da marcha

Essas ferramentas podem facilitar a aplicação clínica no futuro, tornando o método mais acessível.

Uma nova frente no cuidado da osteoartrite

A osteoartrite costuma exigir anos de manejo da dor até que opções cirúrgicas sejam consideradas. Nesse cenário, estratégias como a reeducação da marcha surgem como uma alternativa intermediária importante.

Embora ainda em fase de expansão científica, o estudo publicado na The Lancet Rheumatology (2025) aponta que pequenas mudanças biomecânicas podem ter impacto relevante na qualidade de vida de pessoas com dor crônica no joelho.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn