A resposta do sistema imune que causa a sensação de “corpo moído” durante a gripe

A resposta imune pode causar dor e sensação de corpo moído. (Imagem: Fala Ciência)

Poucos sintomas são tão característicos da gripe quanto aquela sensação de corpo moído, acompanhada de cansaço intenso, dor muscular e vontade de permanecer na cama. Embora pareça que o vírus esteja simplesmente “atacando” os músculos, existe uma explicação mais interessante por trás desse desconforto.

Grande parte da sensação está relacionada à própria resposta imunológica contra a infecção. Quando o organismo identifica o vírus influenza, células de defesa entram em ação e liberam moléculas sinalizadoras capazes de coordenar uma resposta inflamatória em diferentes partes do corpo.

Por isso, a indisposição não é apenas consequência da presença do vírus. O sistema imune também participa ativamente da forma como a gripe é sentida.

A inflamação transforma a infecção em mal-estar

A inflamação sistêmica e o comando cerebral transformam a infecção em mal-estar. (Imagem: Fala Ciência)

Durante uma infecção pelo influenza, componentes da imunidade inata são ativados rapidamente. Entre eles estão monócitos e células dendríticas, que reconhecem sinais relacionados ao vírus e iniciam uma cascata de comunicação imunológica.

Nesse processo, o organismo libera citocinas e outros mediadores inflamatórios. Essas substâncias ajudam a organizar a defesa, mas também podem produzir efeitos sistêmicos.

É justamente aí que aparecem manifestações como:

  • Dor muscular e corporal
  • Cansaço intenso
  • Febre e calafrios
  • Sonolência
  • Redução do apetite
  • Sensação de fraqueza

Além disso, moléculas inflamatórias podem influenciar o sistema nervoso e modificar circuitos envolvidos na percepção de dor, temperatura, energia e comportamento. Esse conjunto de alterações é conhecido na literatura científica como comportamento de doença.

Assim, quando a pessoa sente que “todo o corpo dói”, isso pode representar uma combinação entre inflamação sistêmica, alterações na percepção da dor e mudanças metabólicas provocadas pela resposta à infecção.

Estudo acompanhou a resposta ao influenza

Uma pesquisa publicada na revista Nature Medicine em 1º de julho de 2026, liderada por Loukas Papargyris, analisou voluntários submetidos a uma infecção controlada pelo influenza A/H3N2.

Dos 27 participantes avaliados, 22 foram infectados, sendo que 18 desenvolveram sintomas leves a moderados. Os pesquisadores observaram que as pessoas sintomáticas apresentaram ativação mais rápida e intensa de componentes da imunidade inata, incluindo monócitos e células dendríticas.

O trabalho também encontrou uma relação entre a ativação precoce dessas células e maiores pontuações de sintomas. Posteriormente, essa resposta inicial foi acompanhada por maior ativação de células NK e linfócitos T CD8+, importantes para o controle da infecção viral.

Isso ajuda a compreender um aparente paradoxo: uma resposta imune mais intensa pode estar associada tanto a uma defesa antiviral mais eficiente quanto a uma experiência mais evidente de sintomas.

Por que a gripe derruba tanto a energia?

Combater uma infecção exige recursos. O organismo aumenta a atividade de células imunológicas, modifica o metabolismo e reorganiza prioridades fisiológicas.

Ao mesmo tempo, os sinais inflamatórios chegam ao sistema nervoso e podem induzir comportamentos que favorecem o repouso. Dormir mais, reduzir a atividade física e diminuir o apetite podem fazer parte dessa resposta coordenada.

Portanto, a sensação de estar completamente sem energia durante a gripe não significa necessariamente que os músculos estejam sofrendo uma lesão direta. Em muitos casos, o corpo está reagindo à infecção como um sistema integrado, e a inflamação contribui para produzir essa experiência.

Isso também explica por que descansar durante a gripe é importante. O organismo está direcionando energia para uma batalha imunológica que exige coordenação entre diversos sistemas.

A dor corporal, porém, não deve ser automaticamente atribuída à gripe. Dor muscular muito intensa, fraqueza importante, urina escura, dificuldade para respirar ou piora acentuada do estado geral exigem avaliação médica, porque podem indicar complicações.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn