Uma parte extremamente energética do comportamento de um buraco negro supermassivo ficou escondida por uma barreira que os telescópios ópticos têm dificuldade para atravessar. Ao observar a galáxia NGC 1068 em uma faixa diferente da luz, o Telescópio Espacial James Webb encontrou sinais de um fluxo de gás muito mais intenso do que as observações anteriores indicavam.
A NGC 1068, também conhecida como Messier 77, está a cerca de 45 milhões de anos-luz da Terra e abriga um núcleo galáctico ativo alimentado por um buraco negro supermassivo. O novo estudo mostra que uma parcela importante do material lançado por essa região estava escondida atrás de grandes quantidades de poeira.
Uma cortina de poeira escondia parte da atividade
Quando matéria se aproxima de um buraco negro supermassivo, ela pode formar uma região extremamente energética ao redor do objeto. A energia liberada nesse processo pode produzir ventos e fluxos de gás capazes de modificar o ambiente da galáxia.
O problema é que a poeira presente no centro de algumas galáxias pode bloquear boa parte da luz visível. Por isso, observar apenas essa faixa do espectro pode oferecer uma visão incompleta do fenômeno.
Foi justamente aí que o infravermelho médio se tornou importante.
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Entrar no Canal do WhatsAppA equipe liderada por Cosimo Marconcini, da Universidade de Florença, utilizou o instrumento MIRI, do James Webb, e combinou essas observações com dados do VLT/MUSE e do ALMA. Dessa forma, os pesquisadores conseguiram acompanhar diferentes componentes do gás ao redor do núcleo da NGC 1068.
O gás escondido estava entre os mais rápidos
As novas observações revelaram dois componentes principais no fluxo de gás. Um deles já podia ser estudado com observações ópticas. O outro permanecia encoberto pela poeira e só ficou mais evidente graças ao infravermelho.
A diferença não foi apenas visual.
O componente oculto apresentava velocidades aproximadamente 300 quilômetros por segundo maiores que as do componente mais facilmente observado. Em algumas regiões, o gás alcançava velocidades de até 2.000 quilômetros por segundo, equivalentes a cerca de 7,2 milhões de quilômetros por hora.
Além disso, a maior parte da massa do fluxo parecia estar associada ao componente obscurecido.
Os modelos utilizados pelos pesquisadores indicaram que as estimativas anteriores poderiam ter subestimado drasticamente a massa, a energia e o momento do fluxo, chegando a diferenças de até duas ordens de grandeza.
O buraco negro pode estar remodelando a própria galáxia
Esses fluxos não são apenas espetaculares em termos de velocidade. Eles podem desempenhar um papel importante na evolução das galáxias.
Ao transportar grandes quantidades de gás para longe da região central, um fluxo energético pode alterar as condições necessárias para a formação de novas estrelas. Dependendo de sua intensidade e alcance, também pode modificar a distribuição do material existente na galáxia.
No caso da NGC 1068, os pesquisadores encontraram indícios de que o gás está se deslocando rápido o suficiente para escapar do potencial gravitacional da galáxia, em vez de necessariamente retornar ao centro.
Outro detalhe chamou atenção: o momento do fluxo é maior do que seria esperado considerando apenas a pressão da radiação produzida pelo núcleo ativo. Isso abre espaço para uma contribuição adicional do jato de rádio, que também pode transferir energia e movimento ao gás.
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O infravermelho muda a visão sobre os buracos negros ativos
O resultado mostra por que observar uma galáxia em apenas uma faixa de luz pode deixar partes importantes de sua atividade invisíveis.
Ao atravessar regiões de poeira que dificultam as observações ópticas, o infravermelho médio do James Webb permitiu encontrar uma parcela do fluxo que carregava uma quantidade significativa de massa e energia.
O estudo, publicado por Cosimo Marconcini e colaboradores em 6 de agosto de 2026 na revista Astronomy & Astrophysics, indica que compreender a influência dos buracos negros supermassivos sobre suas galáxias pode exigir a combinação de diferentes instrumentos e faixas do espectro eletromagnético.
