Antes mesmo de o bebê nascer, o cérebro já está seguindo uma espécie de programação biológica extremamente sofisticada. Células-tronco presentes no cérebro em desenvolvimento precisam decidir, em diferentes momentos, quais células produzir e em que quantidade. Duas novas pesquisas mostram que essas decisões são influenciadas por fatores que vão muito além dos genes.
Os estudos indicam que as chamadas células da glia radial, fundamentais para a formação do córtex cerebral, recebem informações relacionadas tanto ao metabolismo dos nutrientes quanto ao contato físico com estruturas de outras regiões do cérebro.
Essas descobertas ajudam a explicar como o cérebro humano consegue produzir uma enorme variedade de células durante o desenvolvimento.
As células que ajudam a construir o córtex
A glia radial funciona como uma das principais populações de células-tronco do cérebro fetal. A partir dela surgem diferentes tipos de neurônios e células de suporte que posteriormente formarão circuitos responsáveis por funções como memória, linguagem, percepção e pensamento.
Além disso, essas células são especialmente importantes no desenvolvimento do córtex humano, que apresenta uma expansão muito maior e uma organização mais complexa do que a observada em diversos outros mamíferos.
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Entrar no Canal do WhatsAppPor isso, entender como a glia radial decide seu destino pode ajudar a investigar alterações que surgem ainda durante a formação do sistema nervoso.
O metabolismo também participa dessas decisões
Um dos estudos, publicado na revista Cell em 4 de agosto de 2026, teve como primeira autora Jessenya Mil. A pesquisa criou um atlas metabólico do córtex humano em desenvolvimento utilizando tecido humano e organoides cerebrais derivados de células-tronco.
Os pesquisadores descobriram que o metabolismo não funciona apenas como uma fonte de energia para as células. Ele também pode influenciar quais tipos celulares são produzidos.
Um dos pontos centrais foi a via das pentoses-fosfato, processo que utiliza derivados da glicose para fornecer componentes necessários à multiplicação celular.
Quando a disponibilidade de glicose foi modificada ou essa via metabólica foi interrompida nos modelos estudados, houve mudanças no destino das células da glia radial. Os organoides passaram a apresentar alterações na composição celular, incluindo aumento de populações de neurônios inibitórios e de glia radial externa.
O resultado mostra que o estado metabólico de uma célula pode fazer parte das instruções que determinam seu comportamento durante o desenvolvimento.
O cérebro em formação também recebe sinais físicos
A segunda pesquisa revelou outro mecanismo surpreendente. Publicado na revista Science em 3 de setembro de 2026, o estudo teve como primeira autora Claudia V. Nguyen e investigou a comunicação entre o tálamo e as células precursoras do córtex.
Utilizando organoides cerebrais humanos combinados, os cientistas observaram que prolongamentos de neurônios do tálamo estabelecem contato físico com células da glia radial durante uma fase muito precoce do desenvolvimento.
Esse contato modificou o comportamento das células-tronco e favoreceu a produção de neurônios excitatórios, especialmente aqueles que formam camadas superiores do córtex.
O estudo também identificou a participação do gene NRXN1, relacionado à formação de conexões entre neurônios. Quando os pesquisadores alteraram esse gene nos modelos experimentais, o contato entre as projeções talâmicas e a glia radial diminuiu, acompanhado por uma redução na produção de determinados neurônios corticais.
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Duas fontes de informação, uma arquitetura extremamente complexa
Embora tenham investigado mecanismos diferentes, os trabalhos apontam para uma mesma conclusão: as células-tronco do cérebro não trabalham isoladamente.
Elas respondem ao ambiente que as cerca. De um lado, existem sinais ligados ao metabolismo e à disponibilidade de nutrientes. De outro, há informações transmitidas por meio de contatos físicos e sinais provenientes de outras regiões cerebrais.
Os resultados também destacam o potencial dos organoides cerebrais e assembloides, modelos laboratoriais que permitem estudar aspectos do desenvolvimento humano que seriam muito difíceis de observar diretamente.
Ainda não significa que alterações na alimentação durante a gestação, por exemplo, provoquem automaticamente mudanças específicas no cérebro. Os experimentos metabólicos foram realizados em tecidos humanos e modelos celulares, e não permitem transformar os resultados em recomendações nutricionais para gestantes.
Porém, eles revelam algo fundamental: a construção do cérebro depende de uma rede de instruções muito mais dinâmica do que se imaginava.
Compreender esses mecanismos pode, no futuro, ajudar pesquisadores a investigar como alterações ocorridas nos primeiros estágios do desenvolvimento estão relacionadas a distúrbios do neurodesenvolvimento e também a determinadas alterações observadas em tumores cerebrais.
