Suplemento popular para o cérebro é ligado a menor longevidade em homens 

Estudo investigou a tirosina e a longevidade masculina. (Imagem: Fala Ciência)

Um aminoácido presente em alimentos ricos em proteínas e vendido em suplementos voltados à concentração e ao desempenho mental acaba de chamar atenção por outro motivo. Uma grande análise científica encontrou uma associação entre níveis mais elevados de tirosina no organismo e menor longevidade em homens.

O resultado não significa que tomar suplementos de tirosina faça uma pessoa viver menos. A pesquisa não avaliou diretamente o uso desses produtos. Ainda assim, os dados levantam uma questão importante sobre como o metabolismo desse aminoácido pode participar do envelhecimento.

Uma substância que também participa da química do cérebro

Infográfico explica a ação da tirosina no cérebro e cognição. (Imagem: Fala Ciência)

A tirosina é um aminoácido utilizado pelo organismo para produzir proteínas e outras moléculas essenciais. Ela também funciona como matéria-prima para a produção de neurotransmissores, incluindo dopamina, noradrenalina e adrenalina.

Por isso, a substância ganhou espaço entre suplementos comercializados para melhorar foco, atenção e desempenho cognitivo.

A tirosina também está relacionada à fenilalanina, outro aminoácido encontrado em alimentos proteicos. O organismo consegue transformar fenilalanina em tirosina por meio de uma reação metabólica específica.

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Essa conexão levou os pesquisadores a investigar se os níveis dessas duas substâncias poderiam estar relacionados à expectativa de vida.

Mais de 270 mil pessoas entraram na análise

A pesquisa utilizou dados de 272.475 participantes do UK Biobank, incluindo informações sobre concentrações sanguíneas dos aminoácidos, características de saúde e registros de mortalidade. Além da análise observacional, os pesquisadores utilizaram randomização mendeliana, uma abordagem genética empregada para investigar possíveis relações causais.

Os resultados mostraram que a tirosina se destacou principalmente entre os homens.

Depois de considerar a influência da fenilalanina, a análise genética estimou uma associação entre níveis mais elevados de tirosina e uma redução de aproximadamente 0,91 ano na longevidade masculina. Entre as mulheres, essa relação não apresentou evidência estatística semelhante.

Já a fenilalanina, quando analisada levando em conta os níveis de tirosina, não apresentou associação com a longevidade.

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A descoberta não condena suplementos de tirosina

É justamente aqui que os resultados precisam ser interpretados com cuidado. O estudo investigou concentrações de tirosina no organismo, e não pessoas que tomavam cápsulas do suplemento.

Portanto, não é possível concluir que um suplemento de tirosina provoque redução da expectativa de vida. Também não significa que alimentos proteicos devam ser evitados.

Os próprios resultados ainda precisam ser compreendidos em relação aos mecanismos biológicos envolvidos. Uma das possibilidades levantadas pelos pesquisadores envolve alterações metabólicas relacionadas à resistência à insulina, enquanto outras hipóteses envolvem vias associadas aos neurotransmissores e ao metabolismo do estresse. Essas explicações permanecem em investigação.

A pesquisa foi publicada na revista Aging em 3 de outubro de 2025, com Jie V. Zhao como primeiro autor.

O principal ponto, portanto, não é abandonar a tirosina, mas entender que um aminoácido essencial pode ter efeitos diferentes dependendo de seus níveis, do metabolismo individual e do contexto biológico. A descoberta abre uma nova frente para investigar por que determinadas características do envelhecimento podem variar entre homens e mulheres.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn