Há alterações no sangue que podem ajudar a compreender aspectos importantes de doenças psiquiátricas complexas. Na esquizofrenia resistente ao tratamento, uma condição em que os sintomas persistem mesmo após diferentes tentativas de tratamento medicamentoso, pesquisadores identificaram diferenças nos níveis de três elementos químicos: selênio, ferro e rubídio.
A descoberta chama a atenção porque essas substâncias participam de processos biológicos importantes, incluindo o equilíbrio oxidativo, o funcionamento celular e os mecanismos relacionados à inflamação.
O resultado abre novas possibilidades para investigar a biologia da esquizofrenia e compreender por que alguns pacientes não apresentam resposta satisfatória aos medicamentos disponíveis.
Três elementos químicos chamaram a atenção dos cientistas
O estudo identificou alterações significativas nos níveis sanguíneos de selênio, ferro e rubídio em pessoas com esquizofrenia resistente ao tratamento.
A pesquisa foi publicada em 2 de novembro de 2026 na revista científica Molecular Psychiatry. O trabalho tem como primeira autora Sandra Luza e utilizou uma abordagem chamada metalômica, que permite investigar a presença e a distribuição de metais e outros elementos químicos em amostras biológicas.
Os pesquisadores compararam pessoas com esquizofrenia resistente ao tratamento com indivíduos de um grupo de controle.
Além das diferenças nos três elementos, foram observadas alterações em substâncias envolvidas na resposta inflamatória e na proteção antioxidante do organismo.
Entre os resultados identificados estavam:
- Ferro: alterações nos níveis séricos desse elemento, relacionado ao transporte de oxigênio e a diferentes reações metabólicas.
- Selênio: redução de proteínas associadas à proteção antioxidante.
- Rubídio: diferenças nas concentrações sanguíneas em comparação com o grupo de controle.
- Citocinas inflamatórias: níveis elevados de determinados mensageiros químicos envolvidos na resposta imunológica.
Essas observações indicam que o metabolismo de elementos químicos pode estar relacionado a processos biológicos presentes na esquizofrenia resistente.
Por que o ferro e o selênio merecem atenção?
O ferro é indispensável para o funcionamento do organismo. Entretanto, quando sua disponibilidade e distribuição ficam desreguladas, ele também pode participar de reações que favorecem a formação de moléculas oxidantes.
Esse processo está relacionado ao chamado estresse oxidativo, situação em que a produção de moléculas potencialmente prejudiciais supera a capacidade de defesa antioxidante das células.
No cérebro, esse desequilíbrio merece atenção porque os neurônios são particularmente dependentes de mecanismos eficientes de proteção celular.
O selênio, por sua vez, participa da atividade de proteínas antioxidantes. Entre elas estão a selenoproteína P (SEPP1) e a glutationa peroxidase 3 (GPX3), que ajudam a controlar processos relacionados à oxidação.
Na pesquisa, os níveis dessas duas proteínas estavam reduzidos nos participantes com esquizofrenia resistente ao tratamento.
Portanto, a combinação de alterações no ferro, no selênio e nas defesas antioxidantes levanta novas questões sobre os mecanismos biológicos envolvidos no transtorno.
Inflamação também pode interferir no metabolismo dos minerais
Outro achado importante foi o aumento da hepcidina, uma proteína que participa do controle da quantidade de ferro disponível no organismo.
Sua produção pode aumentar em situações inflamatórias. Quando isso acontece, a absorção e a distribuição do ferro podem ser modificadas, alterando sua concentração na circulação sanguínea.
Os pesquisadores identificaram também níveis elevados de citocinas pró-inflamatórias, substâncias utilizadas pelas células do sistema imunológico para coordenar respostas inflamatórias.
Uma das hipóteses discutidas é que alterações no selênio e na atividade inflamatória possam contribuir para o aumento da hepcidina e, consequentemente, para mudanças na concentração de ferro no sangue.
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Descoberta ainda não representa um novo exame diagnóstico
Apesar dos resultados, é importante ter cautela. A presença de alterações no selênio, ferro e rubídio não significa que esses elementos possam diagnosticar esquizofrenia ou determinar a resposta de uma pessoa ao tratamento.
O estudo identificou diferenças entre grupos, mas ainda são necessárias novas pesquisas para compreender se essas alterações no sangue correspondem diretamente ao que acontece no tecido cerebral.
Além disso, os resultados não demonstram que corrigir os níveis desses elementos seja capaz de tratar a doença.
