Um medicamento conhecido por controlar crises convulsivas chamou a atenção de cientistas por um motivo completamente diferente. O levetiracetam, usado há anos no tratamento da epilepsia, apresentou efeitos contra um tipo agressivo de tumor cerebral infantil em análises clínicas retrospectivas e modelos experimentais.
A descoberta é especialmente interessante porque o remédio parece agir sobre uma característica peculiar de alguns tumores cerebrais: a capacidade das células cancerosas de receber sinais diretamente dos neurônios.
Tumor cerebral consegue aproveitar sinais do sistema nervoso
O glioma difuso da linha média (GDM) é um tumor que surge em estruturas centrais do sistema nervoso, incluindo regiões como tronco cerebral, tálamo e medula espinhal. Em crianças, esse tipo de câncer apresenta comportamento agressivo e opções terapêuticas ainda limitadas.
Pesquisas anteriores mostraram que células desses tumores podem estabelecer conexões semelhantes a sinapses, estruturas normalmente responsáveis pela comunicação entre neurônios.
Nesse processo, sinais mediados pelo GABA, um dos principais neurotransmissores do sistema nervoso, podem estimular as células tumorais e favorecer sua proliferação.
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Entrar no Canal do WhatsAppÉ justamente nesse circuito que o levetiracetam parece apresentar um efeito inesperado.
Estudo encontrou diferença na sobrevida de crianças com GDM
Publicado em 17 de setembro de 2026 na revista Nature Medicine, o estudo liderado por Tara Barron analisou dados retrospectivos de pacientes pediátricos e também utilizou modelos experimentais de glioma.
Entre crianças com glioma difuso da linha média, aquelas que haviam recebido levetiracetam apresentaram maior sobrevida global. Em uma das análises, a sobrevida mediana foi de aproximadamente 21 meses entre pacientes que usaram o medicamento, contra cerca de 10 meses entre aqueles que não utilizaram.
No entanto, existe uma ressalva importante: os dados clínicos são retrospectivos, portanto não permitem afirmar que o medicamento foi responsável diretamente pelo aumento da sobrevida.
Além disso, o efeito não apareceu da mesma maneira em crianças com gliomas hemisféricos de alto grau, sugerindo que a resposta pode depender das características biológicas do tumor.
Nos experimentos, o medicamento reduziu o crescimento do tumor
A equipe também testou o levetiracetam em modelos de camundongos com glioma difuso da linha média. Nesses experimentos, o tratamento diminuiu a proliferação das células tumorais, reduziu a carga do câncer e esteve associado a maior sobrevida dos animais.
Os pesquisadores observaram ainda que o medicamento diminuiu a transmissão de sinais GABAérgicos entre neurônios e células do glioma.
Curiosamente, esse efeito parece ser diferente do mecanismo tradicional pelo qual o levetiracetam controla convulsões. O medicamento é conhecido principalmente por atuar sobre a proteína SV2A, envolvida na liberação de neurotransmissores.
Nos experimentos com glioma, porém, a ação observada foi independente da SV2A, indicando que o remédio pode estar interferindo em uma interação específica entre o tecido nervoso e o tumor.
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Descoberta ainda precisa chegar aos testes clínicos
Apesar dos resultados promissores, o estudo não significa que o levetiracetam já possa ser considerado um tratamento contra o câncer cerebral infantil.
Os próprios dados indicam a necessidade de ensaios clínicos prospectivos, com grupos maiores de pacientes e análise de características moleculares e localização dos tumores.
Ainda assim, a pesquisa abre uma possibilidade interessante: em vez de atacar apenas as células cancerosas, futuros tratamentos poderiam também interromper as conexões entre neurônios e tumores que ajudam o câncer a crescer.
