Vênus pode ter tido uma lua que acabou desaparecendo, sugere novo estudo

Mariner 10 revelou Vênus coberto por nuvens de ácido sulfúrico. (Imagem processada por Kevin M. Gill, do JPL, com dados da Mariner 10.)

Vênus é quase um gêmeo da Terra em tamanho, massa e composição, mas existe uma diferença impossível de ignorar: enquanto nosso planeta possui uma grande Lua, Vênus não tem nenhum satélite natural conhecido. Mas, uma nova investigação sugere uma possibilidade surpreendente: o planeta talvez tenha tido uma lua no passado, mas as próprias forças gravitacionais de Vênus podem ter determinado seu fim.

A hipótese não significa que os astrônomos tenham encontrado vestígios de uma antiga lua venusiana. Em vez disso, modelos matemáticos mostram que um satélite poderia ter sido destruído pela evolução das marés, sem a necessidade de um segundo impacto gigantesco para explicar seu desaparecimento.

A rotação de Vênus muda completamente o destino de uma lua

A chave está na velocidade com que o planeta gira. Vênus leva cerca de 243 dias terrestres para completar uma rotação, enquanto a Terra faz isso em aproximadamente 24 horas.

Essa diferença altera a maneira como a energia e o momento angular são transferidos entre um planeta e seu satélite. No sistema Terra-Lua, por exemplo, a interação das marés faz com que nossa Lua se afaste lentamente da Terra.

Em Vênus, entretanto, as condições são muito diferentes. Dependendo da velocidade de rotação inicial do planeta e das características do satélite, a evolução orbital poderia fazer a lua perder estabilidade e migrar para regiões cada vez mais próximas de Vênus.

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Uma lua poderia ter terminado em uma colisão gigantesca

Simulações mostram que Vênus pode ter tido uma lua que colidiu. (Imagem: Fala Ciência)

Para investigar esse cenário, os pesquisadores simularam sistemas formados por Vênus e diferentes luas hipotéticas, variando fatores como massa do satélite, velocidade de rotação do planeta, excentricidade e distância orbital inicial.

Os resultados mostraram que o destino de uma possível lua dependia fortemente dessas condições. Em determinados cenários, um satélite com massa semelhante à da Lua poderia sobreviver por bilhões de anos. Em outros, porém, as interações de maré conduziriam o sistema para a destruição do satélite e sua queda em direção ao planeta.

Assim, a ausência de uma lua atualmente não prova que Vênus jamais teve uma. O estudo mostra que um satélite poderia ter existido e, posteriormente, desaparecido por evolução orbital.

O passado de Vênus pode guardar outras pistas

A possibilidade é especialmente interessante porque a história inicial do Sistema Solar foi marcada por colisões entre grandes corpos rochosos. Um desses eventos pode ter criado condições favoráveis à formação de um satélite, embora ainda não exista evidência direta de que isso tenha acontecido em Vênus.

Além disso, uma eventual colisão entre uma lua e Vênus teria consequências importantes para a evolução do planeta. A transferência de energia e momento angular poderia ter alterado sua rotação, estrutura geológica e história climática.

O estudo que investigou a hipótese

A pesquisa tem como primeiro autor o astrofísico Stephen R. Kane, da Universidade da Califórnia, em Riverside, em trabalho realizado com Franck Selsis, Jérémy Leconte e Sean N. Raymond.

O artigo, intitulado Tidal Demise: The Evolution and Fate of a Hypothetical Venus Moon, conclui que a evolução das marés pode explicar a ausência atual de uma lua venusiana em determinadas condições, sem exigir necessariamente um evento posterior de destruição.

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Vênus também ajuda a entender outros mundos

A descoberta teórica vai além do nosso vizinho planetário. Ao procurar planetas semelhantes à Terra fora do Sistema Solar, os astrônomos também investigam se esses mundos possuem luas e como seus sistemas evoluem.

O trabalho indica que simplesmente formar uma lua talvez não seja suficiente. A velocidade de rotação do planeta pode determinar se o satélite permanecerá em órbita ou acabará condenado a desaparecer.

Por enquanto, portanto, a antiga lua de Vênus continua sendo uma hipótese. Mas os modelos mostram que, se ela realmente existiu, o próprio planeta pode ter sido responsável por seu desaparecimento.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes