Planeta mais jovem já descoberto ainda está nascendo ao redor de sua estrela 

Keck e ALMA revelam o jovem planeta e a lacuna no disco. (Imagem: Andrea Bernardi, The Astrophysical Journal Letters)

Um planeta tão jovem que ainda está sendo construído acaba de ser confirmado pelos astrônomos. Chamado Elias 2-24 b, o mundo tem menos de 1 milhão de anos e continua mergulhado no disco de gás e poeira que envolve sua estrela.

A descoberta é especialmente importante porque permite observar uma etapa que, no nosso Sistema Solar, aconteceu bilhões de anos atrás. Em vez de tentar reconstruir a infância dos planetas apenas por meio de modelos, os cientistas agora conseguem estudar um gigante gasoso enquanto ele ainda está acumulando matéria.

Um planeta bebê escondido em uma brecha

Elias 2-24 b orbita uma estrela jovem localizada a aproximadamente 450 anos-luz da Terra. Ao redor dela existe um disco protoplanetário, uma estrutura formada por gás, poeira, gelo e pequenos fragmentos rochosos que funciona como matéria-prima para novos mundos.

Um detalhe chamou a atenção dos astrônomos: o disco apresenta lacunas bem definidas. Essas regiões menos densas são importantes porque planetas em crescimento conseguem interagir gravitacionalmente com o material ao redor e alterar sua distribuição.

No caso de Elias 2-24 b, os dados indicam que o planeta está justamente dentro de uma dessas brechas. Além disso, o mundo possui massa aproximadamente semelhante à de Júpiter e ainda está recebendo material do disco.

Gostou dessa notícia?

Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!

Entrar no Canal do WhatsApp

A pista estava escondida nos arquivos do Keck

Arquivos do Keck e novos dados confirmam a órbita de um exoplaneta. (Imagem: Fala Ciência)

A história da descoberta começou anos antes da confirmação. Em 2018, observações realizadas com o instrumento NIRC2 do Observatório W. M. Keck, no Havaí, registraram um sinal extremamente fraco na região do sistema.

Na época, porém, não havia evidências suficientes para afirmar que aquele ponto correspondia a um planeta.

Anos depois, os pesquisadores voltaram aos dados armazenados no Arquivo do Observatório Keck. Com técnicas mais modernas de processamento, o sinal ganhou outro significado.

Observações adicionais obtidas em 2020, combinadas com dados do Very Large Telescope (VLT) e do ALMA, permitiram acompanhar o comportamento do objeto e confirmar que ele era compatível com um planeta em órbita, e não simplesmente uma estrela distante ou uma falha de observação.

Um gigante gasoso capturado no meio do crescimento

A descoberta também interessa porque conversa diretamente com o chamado modelo de acreção do núcleo, uma das principais explicações para a formação de planetas gigantes.

Nesse cenário, um núcleo sólido cresce dentro do disco e começa a atrair cada vez mais gás. Em determinada fase, o planeta consegue acumular grandes quantidades desse material e desenvolver uma atmosfera extensa.

Elias 2-24 b parece estar justamente em uma etapa muito inicial desse processo.

Por isso, os próximos estudos serão fundamentais. Medições mais precisas poderão ajudar a determinar sua massa, temperatura, atmosfera e velocidade de crescimento, permitindo comparar o comportamento observado com as previsões dos modelos de formação planetária.

Leia mais:

Uma janela para a infância dos sistemas planetários

O mais impressionante é que a descoberta também mostra como dados astronômicos antigos podem ganhar uma nova vida.

As observações de 2018 permaneceram arquivadas até que novas técnicas permitissem extrair delas informações que não estavam claras inicialmente. A combinação de diferentes observatórios foi decisiva para transformar um sinal quase imperceptível em evidência de um planeta recém-nascido.

O estudo liderado por Andrea Bernardi, publicado em 16 de setembro de 2026 na revista científica The Astrophysical Journal Letters, descreve a confirmação de Elias 2-24 b e sua relação com a lacuna existente no disco protoplanetário.

Enquanto continua crescendo, Elias 2-24 b funciona como uma espécie de fotografia cósmica da infância de um planeta gigante, oferecendo aos astrônomos uma oportunidade rara de acompanhar um processo que normalmente só pode ser estudado retrospectivamente.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes