No fundo do mar, uma perseguição pode terminar de uma maneira inesperada. Em vez de capturar diretamente um peixe, o golfinho Bubbles parece ter desenvolvido uma estratégia na qual o próprio alvo acaba liberando alimento que estava dentro do estômago.
A cena foi registrada na Grande Barreira de Corais, na Austrália, e chamou atenção dos pesquisadores porque o comportamento se repetiu durante vários anos.
O animal perseguia indivíduos de xaréu-olho-grande (Caranx sexfasciatus) até que eles regurgitassem parte do alimento ingerido. Logo depois, o golfinho consumia o material expelido enquanto o peixe escapava.
Esse tipo de comportamento é chamado de cleptoparasitismo, uma estratégia em que um animal obtém alimento produzido ou capturado por outro. No caso de Bubbles, porém, existe um detalhe ainda mais incomum: o golfinho aparentemente induz o outro animal a liberar a comida.
Uma estratégia repetida por quatro anos
Os pesquisadores acompanharam registros realizados entre 2021 e 2025 nas águas rasas próximas à Ilha Lady Elliot, no sul da Grande Barreira de Corais.
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Entrar no Canal do WhatsAppAo todo, foram documentadas 11 interações alimentares nas quais o mesmo golfinho perseguia um xaréu específico, provocava a regurgitação e depois consumia o alimento.
Além disso, o comportamento não parecia ocorrer de maneira aleatória. Bubbles selecionava um peixe dentro do cardume e concentrava a perseguição naquele indivíduo, ignorando outros peixes próximos.
Em algumas ocasiões, a sequência chegou a ser repetida várias vezes durante aproximadamente meia hora.
Os registros indicam uma sequência bastante característica:
- identificação de um peixe específico;
- perseguição intensa;
- regurgitação do alimento pelo peixe;
- consumo do material pelo golfinho;
- retorno ao cardume para repetir a estratégia.
O som do golfinho pode ter um papel importante
A pesquisa também encontrou um detalhe intrigante. Durante as perseguições, Bubbles produzia sequências intensas de cliques de ecolocalização e sons tonais de baixa frequência.
Ainda não é possível afirmar exatamente qual função esses sons desempenham. Uma hipótese é que a atividade acústica esteja relacionada à identificação do alvo. Outra possibilidade é que participe da pressão exercida sobre o peixe durante a perseguição.
Os pesquisadores também consideram que Bubbles possa ter aprendido a reconhecer quais indivíduos oferecem maior quantidade de alimento.
Entretanto, essa interpretação ainda é uma hipótese, e o estudo não demonstra que o golfinho consiga determinar previamente quais peixes estão com o estômago mais cheio.
Um comportamento que economiza energia?
Existe uma possível vantagem nessa estratégia. A caça direta exige tempo, deslocamento e gasto energético, especialmente quando a presa é rápida.
Ao fazer outro animal realizar parte do trabalho, o golfinho poderia obter alimento com um custo diferente daquele envolvido na captura convencional.
Isso ganha importância porque Bubbles foi observado realizando essas interações sozinho, enquanto golfinhos-nariz-de-garrafa também são conhecidos por utilizar estratégias cooperativas de alimentação.
Ainda assim, os pesquisadores não calcularam o balanço energético dessa estratégia. Portanto, não é possível afirmar que o comportamento seja necessariamente mais eficiente do que outras formas de alimentação.
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Um caso isolado que pode revelar algo maior
O estudo é particularmente interessante porque representa a primeira evidência direta de cleptoparasitismo em um cetáceo, segundo os autores. Registros anteriores levantavam suspeitas de comportamentos semelhantes em outros cetáceos, mas sem observar diretamente o consumo do alimento regurgitado.
Ao mesmo tempo, existe uma grande cautela na interpretação. Até agora, Bubbles é o único indivíduo documentado utilizando essa estratégia.
Isso significa que não se sabe se outros golfinhos apresentam o mesmo comportamento ou se ele é uma especialização desenvolvida por esse animal.
A dificuldade de observar a alimentação de cetáceos debaixo d’água também pode esconder comportamentos semelhantes. Por isso, tecnologias como drones, câmeras subaquáticas e equipamentos instalados nos próprios animais podem ajudar a revelar outras estratégias ainda desconhecidas.
O estudo foi publicado por Romney Edwards-Francis e colaboradores em 13 de setembro de 2026, na revista científica Ecology and Evolution.
