Buracos negros gigantes parecem estar deixando suas próprias galáxias para trás 

James Webb revela milhares de galáxias entre Peixes e Andrômeda. (Imagem: NASA/ESA/CSA)

Durante muito tempo, astrônomos observaram uma espécie de sintonia entre buracos negros supermassivos e as galáxias onde eles vivem. Agora, uma descoberta sugere que essa relação pode ser bem mais complexa do que parecia.

Uma equipe internacional encontrou uma população de buracos negros que parece estar crescendo muito mais rapidamente do que suas galáxias hospedeiras. Em alguns casos, a diferença é tão grande que o buraco negro representa uma parcela da massa galáctica muito acima do padrão normalmente observado.

A descoberta abre uma nova janela para entender como esses objetos gigantescos evoluem e como conseguem acumular tanta matéria sem que a formação de estrelas acompanhe o mesmo ritmo.

Uma proporção que chama atenção

Quasares recém-descobertos têm buracos negros 10x mais massivos. (Imagem: Fala Ciência)

Em muitas galáxias, a massa do buraco negro central corresponde a uma pequena fração da massa estelar da galáxia. A relação costuma ficar próxima de uma proporção de 200 para 1.

Os objetos identificados no novo estudo são diferentes. Oito quasares apresentaram uma proporção próxima de 20 para 1, indicando que seus buracos negros chegam a representar aproximadamente 5% da massa estelar de suas galáxias.

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É uma diferença considerável.

Para encontrar esses sistemas, os pesquisadores combinaram dados do telescópio espacial de raios X eROSITA com observações ópticas e informações em diferentes comprimentos de onda. Os quasares são especialmente úteis porque surgem quando buracos negros supermassivos estão capturando grandes quantidades de matéria.

À medida que o material se aproxima do horizonte de eventos, ele forma um disco extremamente quente e luminoso, produzindo a radiação que permite identificar esses objetos a enormes distâncias.

O crescimento parece ter saído do ritmo

Três dos quasares analisados estavam entre os mais luminosos da amostra. Isso indica que seus buracos negros estão passando por uma fase de acréscimo intenso de matéria.

Os cálculos sugerem que alguns deles poderiam dobrar sua massa em cerca de 1 bilhão de anos, caso mantenham condições semelhantes de crescimento.

Ao mesmo tempo, as galáxias que os abrigam são relativamente fracas e apresentam menos estrelas do que seria esperado para sistemas com buracos negros tão massivos.

Essa diferença levanta uma questão importante: por que o buraco negro consegue crescer enquanto sua galáxia permanece relativamente pequena?

Uma relação que não funciona sempre em sincronia

Uma possibilidade é que essas galáxias ainda estejam em uma fase anterior de crescimento e formem mais estrelas no futuro. Outra hipótese é que a atividade do próprio buraco negro possa alterar o ambiente ao redor e dificultar a formação de novas estrelas.

Quando um buraco negro supermassivo está ativo, a enorme quantidade de energia liberada pelo material que cai em sua direção pode aquecer ou movimentar o gás da galáxia. Como o gás frio é uma matéria-prima essencial para o nascimento de estrelas, mudanças nesse ambiente podem interferir na evolução galáctica.

Ainda não há dados suficientes para determinar qual processo domina nesses sistemas.

Veja mais:

Um detalhe pode mudar a história dos buracos negros

O estudo de Johannes Buchner, publicado em 7 de setembro de 2026 na revista Astronomy & Astrophysics, analisou uma população de quasares identificada com dados do eROSITA e encontrou evidências de buracos negros supermassivos desproporcionalmente grandes em relação às suas galáxias.

O resultado é importante porque mostra que a conhecida relação entre a massa dos buracos negros e a das galáxias não precisa permanecer estável durante toda a evolução de um sistema.

Em outras palavras, galáxia e buraco negro podem crescer juntos durante determinados períodos, mas também podem passar por fases em que um deles dispara na frente.

Observar mais desses sistemas será fundamental para descobrir se eles representam uma etapa passageira da evolução galáctica ou se revelam um mecanismo de crescimento ainda pouco compreendido.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes