Telescópio FAST encontra duas enormes nuvens de hidrogênio sem estrelas que podem revelar a matéria escura 

Mapa mostra as duas nuvens de hidrogênio próximas à M51. (Imagem: Astronomy & Astrophysics (2026))

Duas estruturas cósmicas acabam de entrar para a lista dos objetos mais intrigantes encontrados no entorno de uma das galáxias mais conhecidas do céu. Astrônomos identificaram duas nuvens de hidrogênio que praticamente não apresentam estrelas visíveis, mas possuem uma quantidade impressionante de gás.

A descoberta foi feita com o gigantesco radiotelescópio chinês FAST, capaz de detectar sinais de rádio emitidos pelo hidrogênio neutro. As duas estruturas estão próximas da galáxia espiral M51, também conhecida como Galáxia do Redemoinho.

Mais do que simples nuvens de gás, elas podem representar um tipo raro de estrutura previsto pelos modelos cosmológicos. Porém, existe uma segunda possibilidade igualmente interessante: os objetos podem ser restos de uma interação entre galáxias.

Dois objetos que parecem não ter estrelas

Nuvens N e S aparecem nas regiões externas do sistema M51. (Imagem: Astronomy & Astrophysics (2026))

As estruturas receberam os nomes de Nuvem N e Nuvem S. Ambas foram encontradas durante uma análise de observações do levantamento FEASTS, realizado com o FAST.

Os pesquisadores analisaram 55 galáxias e procuraram objetos compactos formados principalmente por hidrogênio neutro. Para serem considerados candidatos a RELHIC, os objetos precisavam apresentar algumas características específicas, incluindo ausência de uma contraparte óptica detectável.

Gostou dessa notícia?

Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!

Entrar no Canal do WhatsApp

No fim, somente essas duas nuvens atenderam aos critérios.

Cada uma contém aproximadamente 3 milhões de vezes a massa do Sol em hidrogênio. Além disso, os pesquisadores estimaram uma massa total de halo próxima de 3,7 bilhões de massas solares.

É justamente essa combinação que torna a descoberta tão interessante.

O tipo de estrutura que quase não acende no Universo

A ideia por trás das chamadas RELHICs, sigla em inglês para nuvens de hidrogênio limitadas pela reionização, está relacionada à formação das primeiras estruturas cósmicas.

Segundo o modelo cosmológico ΛCDM, pequenos halos de matéria escura teriam surgido antes das grandes galáxias. Entretanto, nem todos esses halos necessariamente conseguiram formar estrelas.

Em estruturas de baixa massa, a gravidade pode não ser suficiente para comprimir o gás até as condições necessárias para iniciar a formação estelar. Além disso, a radiação ultravioleta presente no Universo pode aquecer o hidrogênio e impedir que ele esfrie e se concentre.

O resultado seria um objeto dominado por matéria escura e gás, mas praticamente sem estrelas para produzir luz visível.

FAST encontrou as nuvens usando ondas de rádio

Como essas estruturas não aparecem claramente em imagens ópticas, os pesquisadores precisaram procurar outra assinatura.

O alvo foi o hidrogênio neutro, que pode ser detectado por meio de uma emissão característica em comprimento de onda de aproximadamente 21 centímetros.

Essa técnica permite encontrar grandes concentrações de gás mesmo quando praticamente nenhuma estrela está presente.

As duas nuvens estão localizadas a aproximadamente 70 a 90 quiloparsecs de M51, o equivalente a cerca de 228 mil a 293 mil anos-luz do centro da galáxia.

A localização também cria um novo problema

Existe, porém, um detalhe que impede os astrônomos de declarar que encontraram halos de matéria escura sem estrelas.

M51 é um sistema conhecido por suas interações gravitacionais entre galáxias. Por isso, as duas nuvens também podem ser pedaços de gás arrancados durante esses encontros cósmicos.

Essa hipótese é chamada de detrito de maré e poderia explicar a presença de hidrogênio sem a necessidade de invocar halos escuros isolados.

Por enquanto, as duas interpretações continuam possíveis.

Leia mais:

A resposta pode estar em observações mais detalhadas

O estudo foi liderado por Qingze Chen, dos Observatórios Astronômicos Nacionais da Academia Chinesa de Ciências, e publicado em 4 de agosto de 2026 na revista científica Astronomy & Astrophysics.

A pesquisa concluiu que as características das duas nuvens são compatíveis com o cenário RELHIC, mas não comprovam que elas sejam halos de matéria escura sem estrelas. As observações atuais também não permitem descartar uma origem relacionada às interações de M51.

Agora, observações de rádio com resolução muito maior poderão revelar a estrutura interna das nuvens e seus movimentos. Se elas apresentarem características esperadas para halos gravitacionalmente ligados, a hipótese RELHIC ganhará força. Caso contrário, os objetos podem acabar sendo reconhecidos como restos de uma antiga interação galáctica.

De qualquer maneira, a descoberta oferece uma oportunidade rara de estudar estruturas que podem representar uma etapa pouco conhecida da formação das galáxias.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes