Betelgeuse revela manchas gigantes e uma possível influência de estrela companheira 

Ilustração mostra Betelgeuse e a possível estrela companheira. (Imagem: NASA)

Betelgeuse sempre chamou atenção por seu tamanho colossal e pelo brilho avermelhado que pode ser visto na constelação de Órion. Agora, porém, uma nova observação revela que a famosa supergigante vermelha está ainda mais irregular do que os astrônomos imaginavam.

Usando o Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), uma equipe conseguiu examinar com enorme precisão a atmosfera interna da estrela. O resultado mostra regiões muito quentes, estruturas assimétricas e grandes células de convecção que ajudam a explicar por que sua superfície está longe de ser uniforme.

Além disso, existe uma possibilidade intrigante: uma estrela companheira próxima pode estar relacionada à distribuição dessas estruturas.

Uma estrela gigante com uma superfície nada uniforme

Betelgeuse está entre as supergigantes vermelhas mais próximas da Terra. Por estar em uma fase avançada de sua evolução, ela também oferece aos astrônomos uma oportunidade rara de acompanhar os processos que acontecem quando uma estrela extremamente massiva começa a perder suas camadas externas.

A atmosfera de Betelgeuse é movimentada por enormes fluxos de gás. Material quente sobe das regiões internas, enquanto parcelas mais frias descem novamente. Esse processo, chamado convecção, produz estruturas muito maiores do que aquelas observadas no Sol.

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Nas novas imagens, esse comportamento aparece de maneira especialmente evidente.

O grande escurecimento deixou pistas importantes

Estágios de Betelgeuse e a estabilidade de suas regiões após o escurecimento. (Imagem: Fala Ciência)

Em 2019 e 2020, Betelgeuse passou por uma queda extraordinária de brilho conhecida como Grande Escurecimento. Durante o episódio, a estrela chegou a parecer aproximadamente 2,5 vezes mais fraca.

O fenômeno despertou intenso interesse porque mostrou que uma estrela desse tipo pode sofrer mudanças perceptíveis em períodos relativamente curtos.

As novas observações do ALMA permitem comparar a atmosfera atual com dados obtidos anteriormente, incluindo observações realizadas em 2015. Essa comparação revelou que determinadas estruturas não desapareceram rapidamente.

Uma das regiões mais quentes, por exemplo, permaneceu aproximadamente na mesma posição durante vários anos.

Manchas chegam a ser centenas de graus mais quentes

A análise mostrou uma atmosfera interna assimétrica, irregular e cheia de estruturas quentes. Algumas regiões apresentaram temperaturas cerca de 800 graus Celsius acima das áreas vizinhas.

O ALMA também identificou ondulações e alterações no contorno da estrela, sinais associados à movimentação de grandes células convectivas.

Para conseguir enxergar esses detalhes, os pesquisadores utilizaram a configuração de maior resolução do observatório. As imagens alcançaram resolução de aproximadamente 7 milissegundos de arco, permitindo estudar estruturas extremamente pequenas em termos angulares.

Além disso, as observações de moléculas como monóxido de carbono e monóxido de silício ajudaram a investigar não apenas a superfície, mas também o gás que se estende para regiões mais externas da atmosfera.

Uma pequena companheira pode estar envolvida

É justamente aqui que surge uma das partes mais intrigantes da descoberta.

Estudos recentes encontraram evidências de uma estrela companheira próxima de Betelgeuse. A orientação das regiões mais persistentes e quentes observadas pelo ALMA parece coincidir com uma direção relacionada à possível órbita desse objeto.

Isso levanta a hipótese de que a companheira possa influenciar, direta ou indiretamente, a estrutura da atmosfera da supergigante.

Entretanto, é importante separar hipótese de confirmação. As observações atuais não comprovam que a estrela companheira seja responsável pelas manchas quentes. Novos acompanhamentos serão necessários para determinar se existe realmente uma conexão orbital.

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A pesquisa ajuda a entender os últimos capítulos de Betelgeuse

O interesse por Betelgeuse vai muito além de sua aparência no céu. Supergigantes vermelhas liberam grandes quantidades de material para o espaço, contribuindo para modificar o ambiente interestelar.

Compreender como essas estrelas perdem massa pode ajudar a explicar uma etapa importante da evolução estelar.

O estudo foi liderado por W. R. F. Dent e publicado em 2026 na revista científica Astronomy & Astrophysics. O trabalho analisou observações de alta resolução e encontrou estruturas persistentes na atmosfera interna da estrela.

Betelgeuse ainda guarda muitos mistérios. Por enquanto, uma coisa ficou mais clara: sua superfície está longe de ser uma esfera tranquila e uniforme. É um ambiente gigantesco, turbulento e em constante transformação, que pode oferecer pistas valiosas sobre os momentos finais da vida de uma estrela supergigante.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes