O Alzheimer costuma ser associado a uma perda progressiva de lembranças. No entanto, uma nova geração de medicamentos está tentando mudar justamente esse cenário ao atuar sobre alterações que acontecem no cérebro antes e durante o avanço dos sintomas.
Um dos principais exemplos é o lecanemabe, anticorpo monoclonal desenvolvido para ajudar o organismo a eliminar determinados agregados da proteína beta-amiloide. Em estudos clínicos, o tratamento conseguiu diminuir de maneira expressiva a quantidade dessas placas e também desacelerou o declínio cognitivo em pessoas com Alzheimer em fase inicial.
A história de Gail Youngdale, nos Estados Unidos, dá uma dimensão pessoal a essa mudança. Ela participou dos estudos do medicamento quando ele ainda estava em desenvolvimento. Com o tratamento, sua família observou uma transformação na capacidade de realizar atividades do dia a dia e no acesso a lembranças que haviam se tornado difíceis.
Foi nesse novo momento da vida que algo inesperado aconteceu: Gail voltou a se aproximar de Phil Mercer, um conhecido de sua adolescência. Os dois haviam seguido caminhos diferentes durante décadas, formaram suas próprias famílias e ficaram muito tempo sem contato. Depois de se reencontrarem já viúvos, iniciaram um relacionamento e acabaram se casando.
A história é emocionante, mas o aspecto médico merece uma explicação mais cuidadosa.
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Entrar no Canal do WhatsAppA estratégia é atacar uma característica do Alzheimer
Durante muito tempo, os medicamentos disponíveis para Alzheimer foram utilizados principalmente para controlar manifestações da doença, como alterações cognitivas e comportamentais.
O lecanemabe pertence a uma categoria diferente. Ele foi desenvolvido para atuar diretamente sobre a beta-amiloide, uma proteína que pode se acumular no cérebro e formar placas.
O processo é mais complexo do que simplesmente existir ou não existir uma placa. A beta-amiloide pode assumir diferentes formas, e algumas delas se agrupam progressivamente. O lecanemabe reconhece determinadas formas agregadas da proteína e contribui para que sejam retiradas do tecido cerebral.
Com isso, a quantidade de amiloide observada nos exames diminui.
Essa característica é importante porque o medicamento não funciona como um simples estimulante da memória. A proposta é interferir em um processo biológico associado ao desenvolvimento do Alzheimer.
O resultado apareceu nos exames e também na evolução cognitiva
A eficácia do lecanemabe foi avaliada de maneira robusta no estudo Clarity AD, publicado no New England Journal of Medicine em 29 de novembro de 2022. O primeiro autor da pesquisa foi Christopher H. van Dyck.
O ensaio clínico reuniu 1.795 participantes com comprometimento cognitivo leve ou demência leve causada pelo Alzheimer. Durante 18 meses, os voluntários receberam lecanemabe ou placebo.
Ao final desse período, o grupo tratado apresentou uma progressão 27% menor do declínio cognitivo e funcional em comparação com o grupo placebo, de acordo com a principal medida utilizada pelos pesquisadores.
Os exames também mostraram uma diferença marcante na quantidade de amiloide. Em uma análise realizada com parte dos participantes, a redução dessa proteína foi muito maior entre aqueles que receberam o medicamento.
É justamente aqui que a história de Gail precisa ser colocada em perspectiva.
A retirada das placas não significa que o medicamento possa devolver todas as lembranças apagadas pelo Alzheimer. O que os ensaios clínicos demonstraram é uma redução da carga amiloide acompanhada de uma diminuição na velocidade do declínio cognitivo.
Cada paciente pode apresentar uma resposta diferente.
O efeito do tratamento está sendo acompanhado por anos
Uma questão importante para qualquer medicamento destinado a uma doença progressiva é saber se o benefício permanece com o passar do tempo.
Por isso, os participantes do estudo Clarity AD continuaram sendo acompanhados.
Uma análise publicada na revista Alzheimer’s & Dementia em dezembro de 2025, com Christopher H. van Dyck como primeiro autor, avaliou dados de acompanhamento de até 36 meses. Os resultados indicaram manutenção dos benefícios clínicos observados anteriormente.
Esses dados ajudam a compreender a finalidade real do medicamento: ganhar tempo contra a progressão da doença, e não eliminar o Alzheimer.
Existe um preço biológico para remover o amiloide
Apesar dos resultados, o lecanemabe exige uma seleção bastante cuidadosa dos pacientes.
O principal motivo são as chamadas ARIA, alterações que podem aparecer nos exames de ressonância magnética durante tratamentos direcionados à beta-amiloide. Elas podem envolver inchaço cerebral ou pequenos sangramentos.
Em alguns casos, essas alterações não provocam sintomas. Em outros, podem causar manifestações neurológicas e exigir interrupção ou ajuste do tratamento.
O risco também não é igual para todas as pessoas. Características genéticas, incluindo determinadas variantes do APOE (apolipoproteína E), podem influenciar a probabilidade de ocorrência dessas complicações.
Por isso, o uso do lecanemabe envolve avaliação médica, confirmação da presença de amiloide e monitoramento por exames de imagem.
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O lecanemabe já está disponível no Brasil?
A resposta é sim, mas dentro de critérios específicos.
A Anvisa registrou o lecanemabe no Brasil em dezembro de 2025 para determinados pacientes adultos com Alzheimer em estágio inicial. A indicação considera pessoas com comprometimento cognitivo leve ou demência leve decorrentes da doença, além da confirmação da presença da patologia amiloide e outros critérios de segurança.
O medicamento é administrado por infusão intravenosa, em intervalos regulares, e seu uso requer acompanhamento especializado.
Portanto, não se trata de um remédio para qualquer pessoa que apresente esquecimentos. O diagnóstico correto é fundamental porque problemas de memória podem ter diversas causas, e o tratamento foi estudado especificamente em determinados estágios do Alzheimer.
