Telescópio Fermi encontra sinal que pode mudar a busca pela matéria escura 

Um sinal de 43 GeV chamou a atenção dos pesquisadores. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

A matéria escura não pode ser vista diretamente, mas sua gravidade está por toda parte. Ela ajuda a explicar o movimento das galáxias e a estrutura dos grandes aglomerados cósmicos. Agora, uma análise de 15,5 anos de observações do Telescópio Espacial Fermi encontrou um sinal incomum de raios gama que pode oferecer uma nova pista sobre a natureza dessa substância misteriosa.

O detalhe que chamou a atenção dos pesquisadores está na energia do sinal: aproximadamente 43,2 bilhões de elétron-volts, ou 43,2 GeV. A característica estreita dessa emissão é particularmente interessante porque não se encaixa facilmente nos padrões esperados de muitos processos astrofísicos conhecidos.

Um brilho específico em meio ao ruído cósmico

Linha de 43 GeV detectada pelo Fermi LAT. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Para procurar possíveis sinais relacionados à matéria escura, os pesquisadores analisaram dados do Fermi Large Area Telescope, conhecido como Fermi LAT. A investigação envolveu 13 grandes aglomerados de galáxias relativamente próximos.

O sinal apareceu com maior destaque quando os pesquisadores combinaram os dados de três estruturas:

  • Aglomerado de Virgem
  • Aglomerado de Fornax
  • Aglomerado de Ofiúco

Esses aglomerados são particularmente interessantes porque possuem grandes quantidades de matéria escura. Ao combinar suas observações, os pesquisadores encontraram uma linha de raios gama próxima de 43 GeV.

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Uma linha espectral desse tipo é diferente de uma emissão espalhada por várias energias. Justamente por isso, ela pode ser mais fácil de associar a um processo físico específico.

A hipótese envolve partículas ainda invisíveis

Uma das possibilidades consideradas envolve os WIMPs, candidatos hipotéticos à matéria escura que, em teoria, teriam massa elevada e interagiriam muito pouco com a matéria comum e com a luz.

Em determinados modelos, duas dessas partículas poderiam se aniquilar e produzir outras partículas, incluindo raios gama. Dependendo do mecanismo, esse processo poderia deixar uma assinatura energética característica.

Entretanto, encontrar uma assinatura compatível não significa que os WIMPs tenham sido descobertos.

O estudo publicado na Physical Review Letters em 12 de agosto de 2026, liderado por Yi-Zhong Fan, apresenta o sinal como uma evidência que merece investigação adicional, e não como uma detecção definitiva de matéria escura.

Um detalhe complica a explicação mais simples

Existe, porém, um problema importante. Se o sinal fosse causado pelo modelo convencional de aniquilação de WIMPs, seria razoável esperar uma assinatura semelhante em regiões da própria Via Láctea, onde também existe uma grande concentração de matéria escura.

Os pesquisadores não encontraram esse sinal equivalente no interior da nossa galáxia. Esse resultado enfraquece a interpretação mais simples baseada na aniquilação convencional de WIMPs e indica que pode ser necessário considerar modelos mais complexos ou até uma origem astrofísica incomum.

Além disso, a intensidade do sinal apresentou variações ao longo do período analisado. Por isso, ainda é necessário determinar se a característica observada possui uma origem física real e qual mecanismo poderia produzi-la.

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A próxima geração de telescópios pode decidir o mistério

Se a emissão for realmente produzida por um fenômeno relacionado à matéria escura, futuras observações poderão confirmar sua existência com muito mais precisão.

Os pesquisadores apontam que um futuro telescópio espacial de raios gama de área muito grande poderia testar o sinal de maneira independente e verificar se ele permanece exatamente na mesma energia.

Por enquanto, portanto, o resultado é uma pista intrigante, não uma prova da matéria escura. Ainda assim, encontrar uma linha tão específica em dados acumulados durante mais de 15 anos mostra como os arquivos de grandes observatórios podem esconder sinais capazes de abrir novas possibilidades para a física.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes