Peixe de 254 milhões de anos encontrado no Brasil guarda pistas de um mundo desaparecido 

Fóssil holótipo de Leolepis matogrossensis encontrado no Brasil. (Crédito: Journal of South American Earth Sciences (2026))

A descoberta de um peixe de apenas 15 centímetros está oferecendo uma rara visão de como era a vida no Brasil pouco antes da maior extinção em massa da história da Terra. O fóssil, encontrado em Mato Grosso, pertence a uma espécie até então desconhecida e chama atenção não apenas pela idade, mas pelo extraordinário estado de preservação.

O animal viveu há aproximadamente 254 milhões de anos, no final do Permiano, quando os continentes ainda estavam reunidos em Gondwana. E há um detalhe especialmente intrigante: seus restos foram encontrados a cerca de 50 quilômetros da estrutura de impacto de Araguainha, formada por um asteroide que atingiu a região em um período geologicamente muito próximo.

Um pequeno peixe com uma proteção incomum

Batizado de Leolepis matogrossensis, o animal pertence aos actinopterígios, grupo de peixes de nadadeiras raiadas que domina os ambientes aquáticos atuais. Atuns, salmões e bacalhaus, por exemplo, fazem parte dessa grande linhagem, que reúne cerca de 96% dos peixes ósseos vivos.

Entretanto, o Leolepis apresentava uma característica que hoje é muito menos comum: seu corpo era revestido por escamas rígidas do tipo ganoide.

Essas estruturas possuíam uma camada externa de ganoína e uma composição associada a tecidos mineralizados. O resultado era uma espécie de armadura natural, bastante diferente das escamas mais finas e flexíveis encontradas em muitos peixes modernos.

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O exemplar media aproximadamente 15 centímetros e apresentava corpo alongado, pequenas estruturas dentárias e cerca de 50 fileiras longitudinais de escamas. Pela anatomia da mandíbula e pelo tamanho dos dentes, os pesquisadores consideram possível que o animal consumisse pequenos invertebrados e material vegetal.

Um retrato raro de Gondwana antes do cataclismo

Crânio fossilizado revela dentes e detalhes ósseos do peixe ancestral. (Crédito: Journal of South American Earth Sciences (2026))

Na época em que o Leolepis vivia, a paisagem da região era completamente diferente da atual. O território fazia parte de Gondwana, quando América do Sul e África ainda estavam conectadas.

O peixe habitava um grande corpo de água continental, descrito no estudo como um megalago raso. O ambiente se desenvolveu durante a transformação de um antigo mar interior e preservou organismos que viveram pouco antes de uma das maiores mudanças da história do planeta.

Essa proximidade temporal é importante porque o fim do Permiano, ocorrido há cerca de 252 milhões de anos, foi marcado pela maior crise biológica conhecida. Estimativas indicam que até 95% das espécies marinhas e cerca de 78% da vida terrestre desapareceram.

A principal explicação envolve o intenso vulcanismo associado às Armadilhas Siberianas, que provocou alterações climáticas profundas. O impacto de Araguainha também pode ter contribuído para mudanças ambientais regionais no Hemisfério Sul.

O fóssil que sobreviveu ao registro geológico

A importância do achado não está apenas na nova espécie. O exemplar é excepcionalmente completo para um peixe do Permiano encontrado na América do Sul.

Grande parte dos registros brasileiros desse período consiste em escamas isoladas, dentes ou fragmentos ósseos. No caso do Leolepis, várias partes do corpo permaneceram articuladas, permitindo analisar características anatômicas que normalmente desaparecem do registro fóssil.

Além disso, o material foi encontrado em uma área próxima à cratera de impacto de Araguainha, uma das estruturas desse tipo mais importantes da América do Sul.

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O estudo científico por trás da descoberta

A nova espécie foi descrita por Valéria Gallo, autora principal do trabalho publicado no Journal of South American Earth Sciences. O artigo, disponibilizado em 2026, apresenta a análise anatômica e evolutiva do fóssil e posiciona Leolepis entre os actinopterígios primitivos.

O estudo também destaca a raridade de fósseis articulados desse grupo no registro paleozoico sul-americano.

Mais do que apresentar uma nova espécie, o fóssil ajuda a reconstruir um ecossistema brasileiro desaparecido há mais de 250 milhões de anos. E sua preservação mostra que, mesmo em regiões profundamente alteradas por eventos geológicos gigantescos, fragmentos extraordinários da vida antiga ainda podem permanecer escondidos nas rochas.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes