Autismo e intestino: por que problemas digestivos são tão frequentes? 

Constipação e dor abdominal estão entre os sintomas investigados. (Imagem: Fala Ciência)

Constipação, diarreia, dor abdominal, gases e alterações nas fezes aparecem com frequência entre pessoas no espectro autista. A relação chama atenção porque os sintomas digestivos não fazem parte dos critérios que definem o transtorno do espectro autista, mas podem acompanhar a condição e afetar significativamente o bem estar.

A ciência ainda não encontrou uma explicação única. Porém, pesquisas recentes apontam para uma interação complexa envolvendo alimentação, microbiota intestinal, sistema nervoso do intestino e comunicação entre o trato gastrointestinal e o cérebro.

O intestino também possui uma rede própria de comunicação

Comunicação entre intestino, cérebro e autismo. (Imagem: Fala Ciência)

O sistema digestivo não funciona apenas como um tubo responsável pela digestão dos alimentos. Ele possui o chamado sistema nervoso entérico, uma extensa rede de neurônios capaz de controlar movimentos intestinais, secreções e outras funções.

Esse sistema mantém comunicação constante com o cérebro e também sofre influência dos microrganismos que vivem no intestino. Por isso, alterações em uma dessas partes podem repercutir nas outras.

Uma revisão publicada em 2026 na revista Autism Research analisou justamente essa relação. O trabalho, liderado por Baptiste Ganachaud, descreveu evidências de que alterações na microbiota e em substâncias produzidas pelas bactérias intestinais podem interagir com o sistema nervoso entérico, afetando processos relacionados à função gastrointestinal.

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Isso ajuda a compreender por que motilidade intestinal alterada pode aparecer em algumas pessoas autistas. Entretanto, a revisão não estabelece que essas alterações sejam a causa do autismo.

A microbiota pode participar dessa história

Bilhões de microrganismos vivem no intestino humano. Eles participam da digestão, produzem metabólitos e interagem com células do sistema imunológico e do próprio intestino.

Em pessoas autistas, diferentes pesquisas encontraram diferenças na composição da microbiota intestinal. Entretanto, os resultados não são uniformes, e fatores como alimentação, medicamentos, idade e ambiente também podem modificar profundamente essas comunidades microbianas.

Por isso, não existe atualmente um “microbioma do autismo” que possa ser usado para diagnosticar a condição ou explicar sozinho os problemas digestivos.

A pesquisa de 2026 destaca justamente essa complexidade. Os autores apontam que metabólitos produzidos pelas bactérias podem influenciar o sistema nervoso entérico, criando uma possível conexão entre microbiota e sintomas gastrointestinais.

Alimentação seletiva pode complicar ainda mais a digestão

Outro fator importante é o comportamento alimentar. Seletividade alimentar é relativamente comum no espectro autista e pode limitar bastante a variedade de alimentos consumidos.

Uma dieta muito restrita pode resultar em menor ingestão de fibras, frutas, vegetais e outros alimentos importantes para o funcionamento intestinal, dependendo das escolhas individuais.

Isso pode favorecer constipação e outras alterações digestivas. Portanto, nem todo sintoma gastrointestinal observado em uma pessoa autista necessariamente resulta de uma alteração diretamente ligada ao transtorno. Hábitos alimentares, rotina, hidratação, medicamentos e outras condições também precisam ser considerados.

Não existe uma solução única para todos

Embora o eixo intestino cérebro seja uma área promissora de investigação, ainda não há evidências suficientes para recomendar suplementos, probióticos ou dietas restritivas como tratamento universal dos sintomas gastrointestinais associados ao autismo.

O caminho mais seguro é identificar o sintoma específico e investigar suas possíveis causas. Constipação persistente, dor abdominal recorrente, diarreia ou mudanças importantes nas fezes merecem avaliação profissional, principalmente quando interferem na alimentação, sono ou rotina.

A ciência está começando a compreender melhor essa conexão. O intestino parece participar de uma rede extremamente complexa de comunicação com o cérebro, mas ainda há muitas peças desse quebra cabeça a serem esclarecidas.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn