No coração de muitas galáxias existem buracos negros supermassivos capazes de transformar estrelas que passam perto demais em verdadeiros espetáculos cósmicos. Em alguns casos, porém, a estrela não é destruída completamente. Ela sobrevive ao primeiro encontro, retorna depois de algum tempo e volta a perder parte de seu material.
O resultado é uma sequência de clarões luminosos que podem reaparecer durante meses ou anos. O comportamento intrigava os astrônomos porque, em alguns sistemas, cada nova erupção se torna mais fraca. Agora, uma pesquisa aponta que a resposta pode estar na velocidade com que a estrela já girava antes de ser capturada pelo buraco negro.
O raro caso em que uma estrela sobrevive ao ataque gravitacional
Os chamados eventos de ruptura de maré acontecem quando uma estrela se aproxima perigosamente de um buraco negro. A diferença da força gravitacional exercida sobre diferentes partes da estrela pode deformá-la e arrancar grandes quantidades de matéria.
Quando a aproximação é extrema, a estrela pode ser completamente destruída. Entretanto, existe outra possibilidade. Se ela passar a uma distância um pouco maior, apenas uma parte de sua massa é removida, enquanto o núcleo permanece intacto.
É justamente esse cenário que produz os eventos repetidos de ruptura parcial de maré, conhecidos pela sigla rpTDE.
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Entrar no Canal do WhatsAppA estrela continua presa à gravidade do buraco negro e retorna periodicamente. A cada passagem, perde mais material, que posteriormente pode alimentar o ambiente ao redor do objeto compacto e produzir uma nova emissão de luz.
O brilho diminui, mas a explicação não era tão simples
À primeira vista, seria fácil imaginar que as erupções simplesmente ficam mais fracas porque a estrela está perdendo massa. No entanto, modelos anteriores apresentavam um problema.
Mesmo quando a quantidade de material arrancado diminuía, a luminosidade máxima das erupções podia permanecer relativamente estável. Isso acontecia porque as forças de maré também aceleravam a rotação da estrela.
Com a rotação mais rápida, o material retirado conseguia retornar em direção ao buraco negro em menos tempo. Assim, mesmo com menos matéria disponível, a taxa de alimentação podia permanecer suficientemente alta para manter o brilho.
A nova pesquisa encontrou uma maneira de produzir o padrão observado de erupções progressivamente mais fracas.
A rotação inicial pode mudar toda a história
O estudo indica que o cenário muda quando a estrela já começa sua trajetória ao redor do buraco negro girando rapidamente.
Nesse caso, cada encontro adicional provoca uma alteração relativamente menor em sua rotação. O tempo necessário para que o material arrancado retorne também permanece mais estável.
Consequentemente, quando a estrela passa a perder quantidades cada vez menores de massa, a taxa de material que retorna ao ambiente do buraco negro diminui. O resultado esperado é uma queda gradual na luminosidade das erupções.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores utilizaram simulações hidrodinâmicas envolvendo estrelas de sequência principal com pelo menos uma massa solar e um buraco negro com cerca de um milhão de massas solares. Os resultados indicaram que estrelas com rotação inicial elevada e alinhada ao movimento orbital podem produzir exatamente o padrão de clarões que diminui ao longo dos encontros.
Uma dupla estelar pode estar por trás do fenômeno
Mas surge uma questão: por que uma estrela capturada por um buraco negro estaria girando tão rapidamente?
Uma possibilidade envolve o chamado mecanismo de Hills. Nesse cenário, duas estrelas muito próximas formam um sistema binário que passa perto de um buraco negro supermassivo. A intensa gravidade pode separar as duas estrelas, expulsando uma delas e capturando a outra.
Antes disso acontecer, as estrelas do sistema binário podem estar em rotação sincronizada. Quanto mais compacto for o par, mais rapidamente cada estrela precisa girar para acompanhar o movimento orbital.
Assim, a própria origem da estrela capturada poderia explicar sua elevada rotação inicial.
Uma pista para entender estrelas próximas de buracos negros
O trabalho foi liderado por Ananya Bandopadhyay, em colaboração com outros pesquisadores. O estudo foi publicado no The Astrophysical Journal em 18 de agosto de 2026.
A proposta é importante porque conecta dois fenômenos aparentemente distintos: a rotação acelerada de uma estrela e a diminuição das erupções produzidas durante seus encontros repetidos com um buraco negro.
Além disso, o mecanismo de Hills pode ajudar os astrônomos a compreender a origem de algumas estrelas que hoje orbitam Sagitário A*, o buraco negro supermassivo localizado no centro da Via Láctea.
Ainda há muito a descobrir sobre esses sistemas extremos. Entretanto, observar uma estrela sendo lentamente despojada por um buraco negro oferece uma oportunidade rara de acompanhar, quase em câmera lenta, uma interação gravitacional que revela detalhes sobre a física dos objetos mais extremos do Universo.
