Uma expressão séria, o corpo mais recolhido e um momento aparentemente solitário foram suficientes para transformar Kiyomasa, um gorila de 13 anos, em uma das figuras mais comentadas entre os visitantes do Zoológico e Jardim Botânico de Higashiyama, em Nagoya, no Japão.
O primata teria se afastado após um desentendimento com sua companheira, criando uma cena que, para os olhos humanos, lembra alguém tentando processar uma discussão. A aparência curiosamente familiar chama atenção, mas também oferece uma oportunidade para entender algo muito mais interessante: gorilas possuem uma vida social complexa e apresentam comportamentos sofisticados depois de conflitos.
Isso não significa, porém, que seja possível afirmar que Kiyomasa estava literalmente “triste” ou refletindo sobre a briga. Interpretar estados emocionais de animais exige cautela.
A cena não permite saber exatamente o que o animal estava sentindo
Uma fotografia ou vídeo consegue registrar apenas um instante. Por isso, uma postura cabisbaixa não permite determinar exatamente o que um gorila está sentindo.
Ainda assim, o contexto é biologicamente interessante. Gorilas vivem em grupos, estabelecem relações sociais duradouras e precisam administrar conflitos regularmente. Brigas podem envolver competição, alimentação, espaço, reprodução ou simplesmente diferenças entre indivíduos.
Depois de um confronto, o comportamento do animal pode mudar temporariamente. Ele pode se afastar, permanecer próximo de outros integrantes do grupo ou buscar novamente contato social.
Confira, a seguir, o vídeo de Kiyomasa que está encantando os internautas:
Gorilas sabem lidar com conflitos de maneira surpreendente
Um estudo publicado no American Journal of Primatology em julho de 2006, liderado pela primatóloga Suma Mallavarapu, analisou o comportamento pós-conflito de gorilas-das-planícies-ocidentais mantidos em cativeiro.
Os pesquisadores observaram 223 conflitos envolvendo 13 gorilas e identificaram maior proximidade entre antigos oponentes após determinadas disputas. Também foram registrados comportamentos de aproximação de terceiros em relação ao indivíduo que havia sofrido a agressão.
Esse tipo de comportamento é conhecido na literatura como reconciliação ou consolo, dependendo de quem inicia a interação.
Um detalhe chama atenção: nos gorilas estudados, a proximidade física, mais do que o contato corporal direto, pareceu desempenhar papel importante na retomada das relações sociais.
Assim, uma discussão não necessariamente significa o fim de uma relação. Em espécies altamente sociais, administrar conflitos pode ser fundamental para manter a estabilidade do grupo.
Um dos maiores primatas do planeta também é extremamente sociável
Os gorilas são os maiores primatas vivos, mas seu tamanho impressionante esconde características comportamentais bastante sofisticadas.
Eles apresentam:
- fortes vínculos sociais entre integrantes do grupo;
- comunicação por vocalizações, expressões faciais e posturas corporais;
- períodos prolongados de cuidado parental;
- aprendizagem social;
- reconhecimento de indivíduos;
- diferentes estratégias para lidar com conflitos.
Além disso, gorilas conseguem utilizar diferentes formas de comunicação corporal. Bater no peito, por exemplo, pode estar associado à demonstração de tamanho, identidade e contexto social.
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A cena viral não prova uma “crise existencial”
É tentador olhar para Kiyomasa e imaginar que ele estava refletindo sobre seu relacionamento. Entretanto, a ciência não permite chegar a essa conclusão apenas observando uma expressão ou postura.
O mais interessante está justamente naquilo que sabemos: gorilas apresentam comportamentos sociais complexos após conflitos, e estudos científicos já documentaram reconciliação e interações semelhantes ao consolo nessa espécie.
Por isso, a imagem do gorila japonês pode até parecer uma cena humana, mas sua verdadeira importância está em lembrar que a vida emocional e social dos grandes primatas é muito mais sofisticada do que sua aparência muitas vezes sugere.
