O Sol parece estável quando observado do céu, mas sua atividade pode mudar drasticamente. Em determinados momentos, nossa estrela libera enormes quantidades de energia e partículas, capazes de interferir em satélites, sistemas de comunicação, GPS e redes elétricas. O mais intrigante é que algumas dessas tempestades podem ter sido muito mais intensas do que qualquer evento registrado pela tecnologia moderna.
A pista para descobrir isso está em um lugar inesperado: árvores que viveram há centenas ou milhares de anos.
Anéis de árvores funcionam como arquivos do Sol
Todos os anos, muitas árvores formam um novo anel de crescimento. Além de registrar a passagem do tempo, essa madeira pode preservar alterações na quantidade de carbono 14, um isótopo radioativo produzido na atmosfera quando partículas energéticas atingem moléculas presentes no ar.
Quando uma tempestade solar excepcionalmente intensa ocorre, ela pode aumentar temporariamente a produção desse isótopo. Parte do carbono 14 acaba entrando no ciclo natural do carbono e pode ser incorporada pelas árvores.
Assim, ao analisar anéis individuais, os pesquisadores conseguem encontrar picos repentinos que funcionam como marcas de antigas tempestades solares.
Um dos primeiros sinais desse tipo foi identificado em cedros japoneses por Fusa Miyake. Entre 774 e 775 d.C., os anéis apresentaram uma elevação extraordinária de carbono 14. Posteriormente, registros de outras regiões ajudaram a confirmar que o fenômeno não estava restrito ao Japão.
Eventos de Miyake mostram que o Sol já foi muito mais extremo
Esses registros deram origem ao conceito de eventos de Miyake, episódios de intensa atividade de partículas solares identificados em arquivos naturais.
Eles são extremamente raros. Alguns ocorreram há milhares de anos e deixaram sinais tão fortes que continuam detectáveis atualmente. O problema é que ainda existe uma grande lacuna entre as tempestades solares comuns observadas por satélites e esses acontecimentos excepcionais registrados nas árvores.
É justamente nessa faixa intermediária que pode estar uma informação importante.
Pesquisadores suspeitam que tempestades solares de intensidade intermediária possam ser mais frequentes do que os registros modernos conseguem mostrar. Se isso for confirmado, a avaliação dos riscos para uma sociedade cada vez mais dependente de tecnologia poderá mudar.
Quatro possíveis eventos foram encontrados no primeiro milênio
Um estudo publicado na revista Communications Earth & Environment, liderado por Jian Wang e publicado em 6 de janeiro de 2026, analisou registros anuais de carbono 14 preservados em árvores entre os anos 1 e 970 d.C.
A equipe reuniu oito séries de dados, incluindo cinco conjuntos recém-medidos em carvalhos europeus e três registros já existentes. A análise identificou quatro possíveis eventos de partículas solares, datados aproximadamente de 14, 553, 675 e 954 d.C.
Esses episódios podem representar eventos de intensidade intermediária. No entanto, os próprios pesquisadores destacam que sinais menores são mais difíceis de confirmar porque variações naturais do carbono 14 podem produzir padrões semelhantes.
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O próximo grande desafio está escondido nas árvores
Interpretar esses registros não é tão simples quanto encontrar um anel com muito carbono 14. O sinal pode ser alterado pelo ciclo natural do carbono, pelo crescimento das árvores, pela espécie analisada, pela localização geográfica e pelo campo magnético da Terra.
Por isso, uma única árvore dificilmente é suficiente para confirmar um fenômeno. A comparação entre diferentes espécies e regiões é essencial.
Os pesquisadores agora buscam registros especialmente valiosos, como os de árvores kauri da Nova Zelândia, que podem ajudar a ampliar as informações disponíveis no Hemisfério Sul.
Vale destacar que as árvores não conseguem prever a data de um evento futuro. Porém, seus anéis podem ajudar a revelar com que frequência o Sol já produziu tempestades muito mais poderosas do que aquelas observadas na era moderna. E conhecer esse passado pode ser fundamental para compreender os riscos que uma futura tempestade representaria para a tecnologia da Terra.
