O CO₂ está mudando o sangue humano sem que percebamos?

A poluição atmosférica na cidade afeta diretamente a respiração e saúde das pessoas. (Imagem: Fala Ciência)

O aumento do dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera pode estar deixando uma marca inesperada no organismo humano. Uma análise de mais de duas décadas de exames de sangue identificou mudanças graduais em substâncias fundamentais para o funcionamento do corpo, acompanhando o período de elevação das concentrações atmosféricas do gás.

Os pesquisadores encontraram um aumento de aproximadamente 7% nos níveis médios de bicarbonato, enquanto as concentrações de cálcio e fósforo diminuíram. Embora os resultados não comprovem que o CO₂ seja diretamente responsável por essas alterações, a tendência chamou atenção pela sua persistência.

Uma transformação detectada em décadas de exames

Para chegar aos resultados, os cientistas analisaram dados do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), dos Estados Unidos. O levantamento reuniu exames sanguíneos de aproximadamente 7 mil pessoas, coletados entre 1999 e 2020.

O trabalho foi publicado na revista científica Air Quality, Atmosphere & Health, com Alexander Larcombe como autor principal, em 15 de agosto de 2026.

Durante o mesmo período, o CO₂ atmosférico passou de aproximadamente 369 ppm em 2000 para mais de 420 ppm atualmente. A coincidência entre as duas tendências não demonstra causalidade, mas levanta uma hipótese que merece investigação.

O bicarbonato funciona como um regulador químico

O aumento do CO₂ pode alterar a composição do sangue humano. (Imagem: Fala Ciência)

O bicarbonato é essencial para o controle do pH do sangue. Quando o CO₂ aumenta no organismo, ocorre uma série de reações químicas que podem alterar o equilíbrio ácido base.

Para compensar essas mudanças, principalmente pulmões e rins trabalham continuamente para manter a composição sanguínea dentro de limites estreitos. O aumento persistente do bicarbonato pode, portanto, representar uma adaptação fisiológica ou estar relacionado a outros fatores ainda não identificados.

As projeções do estudo indicam que, se a tendência continuar, o bicarbonato médio da população poderá se aproximar do limite superior da faixa considerada saudável em algumas décadas.

Cálcio e fósforo também apresentaram queda

Os pesquisadores observaram ainda reduções nos níveis médios de cálcio e fósforo, minerais indispensáveis ao organismo.

O cálcio participa da contração muscular, comunicação entre células nervosas e formação óssea. Já o fósforo integra moléculas fundamentais para o metabolismo energético e para a estrutura celular.

As projeções sugerem que esses marcadores podem se aproximar do limite inferior de suas faixas consideradas saudáveis ainda neste século.

Entretanto, a identificação de mudanças persistentes em uma grande população cria uma questão relevante para a ciência: até que ponto uma atmosfera mais rica em CO₂ pode influenciar, ao longo de décadas, a fisiologia humana?

Para responder a isso, será necessário acompanhar simultaneamente concentrações atmosféricas de CO₂, marcadores sanguíneos e indicadores de saúde em diferentes populações.

Além dos impactos climáticos já conhecidos, compreender essa possível conexão pode revelar uma dimensão ainda pouco explorada da relação entre mudanças ambientais e saúde humana.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes