Bebês que crescem com cães e gatos têm menor risco de desenvolver alergias alimentares 

Conviver com cães pode ampliar os estímulos ambientais do bebê. (Imagem: Fala Ciência)

Ter um cachorro ou gato em casa pode significar muito mais do que companhia durante os primeiros anos de vida. O contato precoce com animais também expõe o bebê a uma variedade maior de microrganismos e partículas ambientais, e essa diversidade pode participar da formação do sistema imunológico.

A hipótese é especialmente interessante quando o assunto são alergias alimentares, condições nas quais o organismo reage de maneira inadequada a proteínas que, para a maioria das pessoas, são inofensivas.

No entanto, é importante separar associação de causa. A presença de um animal de estimação não significa que o bebê ficará protegido contra alergias, mas pesquisas sugerem que determinados padrões de exposição podem estar relacionados a um menor risco.

A casa com animais pode treinar o sistema imunológico

Entenda como a convivência com animais na infância treina a imunidade. (Imagem: Fala Ciência)

Durante a infância, o sistema imunológico passa por uma intensa fase de desenvolvimento. Nesse período, o organismo entra em contato com bactérias, fungos, partículas ambientais e diferentes componentes da alimentação.

Cães e gatos podem contribuir para essa exposição porque carregam microrganismos e partículas do ambiente para dentro de casa. Uma das hipóteses estudadas é que essa maior diversidade microbiana ajude o sistema imunológico a desenvolver mecanismos de tolerância.

Essa ideia está relacionada à chamada hipótese da higiene e, mais recentemente, à hipótese da biodiversidade. A proposta não é que sujeira seja necessária para a saúde, mas que uma exposição muito limitada à diversidade ambiental durante fases críticas do desenvolvimento possa influenciar a maturação imunológica.

A proteção parece depender do tipo de animal

Os resultados científicos não indicam que todos os animais produzam exatamente o mesmo efeito. Cães e gatos aparecem associados a padrões diferentes de alergia, dependendo da espécie, do alimento envolvido e do momento da exposição.

Isso acontece porque cada animal modifica o ambiente doméstico de uma maneira particular. Além disso, fatores como genética, alimentação, presença de dermatite atópica e histórico familiar de alergias também interferem no risco individual.

Portanto, não seria correto recomendar a adoção de um animal exclusivamente como estratégia para prevenir alergias alimentares.

A relação entre pets e alergias é mais complexa do que parece 

Uma grande revisão sistemática e metanálise publicada em 9 de fevereiro de 2026 na revista JAMA Pediatrics, liderada por Nazmul Islam, avaliou fatores associados ao desenvolvimento de alergia alimentar em bebês e crianças. O trabalho reuniu evidências sobre diversos fatores precoces da vida, incluindo condições de pele, exposição a alimentos e características familiares.

Um ponto importante é que a exposição a animais de estimação não apareceu como um fator protetor estabelecido nessa análise. Isso é relevante porque impede transformar a associação observada em estudos anteriores em uma recomendação médica. A evidência sobre pets e alergia alimentar continua inconsistente.

Assim, o cenário científico atual é mais interessante do que uma simples relação de causa e efeito: há sinais de que determinadas exposições ambientais precoces podem influenciar a formação da tolerância imunológica, mas ainda não existe comprovação de que conviver com cães ou gatos previna alergias alimentares.

A alimentação continua sendo uma peça fundamental

A presença de um cachorro ou gato não substitui as medidas que possuem evidências mais sólidas para prevenção de alergias. A introdução adequada de alimentos potencialmente alergênicos, dentro das recomendações pediátricas, tem papel muito mais direto na construção da tolerância oral.

Além disso, bebês com dermatite atópica importante ou histórico familiar de alergias podem apresentar risco aumentado e merecem acompanhamento individualizado.

Por isso, conviver com animais pode fazer parte de um ambiente diversificado e saudável, mas não deve ser encarado como tratamento ou vacina contra alergias alimentares.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn