Para um cão, uma mudança sutil no rosto do tutor pode carregar muito mais informação do que parece. Um sorriso, uma expressão de medo ou um semblante triste não são necessariamente percebidos da mesma maneira pelo cérebro canino. Agora, pesquisadores encontraram evidências de que essa leitura emocional pode ser observada diretamente na atividade cerebral dos animais.
O estudo, publicado na revista iScience, analisou como o cérebro de cães reage diante de rostos humanos com diferentes expressões. Os resultados são particularmente interessantes porque indicam que os animais não apenas diferenciam expressões positivas de negativas, mas também conseguem apresentar padrões neurais diferentes diante de algumas emoções negativas específicas.
O cérebro canino reage de maneira especial aos rostos felizes
Os pesquisadores realizaram dois experimentos com cães de companhia treinados para permanecerem imóveis durante exames de ressonância magnética funcional, técnica que permite observar alterações na atividade cerebral.
Na primeira etapa, oito cães observaram fotografias de pessoas desconhecidas apresentando expressões felizes ou neutras. Quando os animais viam rostos sorridentes, houve aumento de atividade em uma região do córtex temporal direito que se estendia até o núcleo caudado.
Essa descoberta chama atenção porque o núcleo caudado está associado a circuitos relacionados à recompensa. Assim, a resposta cerebral observada sugere que rostos humanos felizes possuem um significado particularmente relevante para os cães.
Medo e tristeza deixam assinaturas diferentes no cérebro
Na segunda experiência, participaram 12 cães, que observaram imagens de rostos humanos demonstrando felicidade, raiva, medo e tristeza.
Os pesquisadores utilizaram métodos de aprendizado de máquina para identificar padrões de atividade cerebral associados a cada expressão. Quando a análise ficou concentrada em determinadas regiões cerebrais, foi possível separar os rostos felizes das expressões negativas.
Entretanto, a descoberta mais curiosa apareceu quando os cientistas analisaram a atividade do cérebro inteiro.
Os padrões neurais permitiram diferenciar:
- medo e raiva;
- medo e tristeza.
Já a distinção entre raiva e tristeza não apresentou o mesmo resultado.
Isso sugere que o cérebro canino pode tratar algumas expressões negativas de maneira diferente, especialmente o medo. Porém, isso não significa que o cão compreenda essas emoções exatamente como um ser humano faria.
Estudo publicado revela a diferença
O trabalho foi publicado em 10 de agosto de 2026 na revista iScience, periódico científico da Cell Press. O primeiro autor do estudo é Raúl Hernández-Pérez, da Universidade de Viena.
A pesquisa utilizou exames de ressonância magnética em cães acordados e analisou os padrões de atividade cerebral produzidos pela observação de rostos humanos com diferentes emoções. Os dados mostraram que a atividade cerebral dos cães contém informações capazes de distinguir determinadas expressões emocionais, principalmente quando o cérebro inteiro é considerado.
Os próprios dados do estudo estão disponíveis em um repositório científico, incluindo os resultados dos experimentos e os mapas de atividade cerebral analisados.
Na vida real, o cachorro não olha apenas para o rosto
Apesar dos resultados, existe uma diferença importante entre o experimento e a convivência cotidiana. Os cães não interpretam as emoções humanas usando somente expressões faciais.
Na rotina, eles recebem simultaneamente informações provenientes da voz, postura corporal, movimentos, cheiro e contexto. Uma pessoa assustada, por exemplo, pode alterar a expressão do rosto, o tom de voz, a postura e até o comportamento corporal.
Por isso, uma fotografia utilizada em laboratório representa apenas uma parte da comunicação que acontece entre humanos e cães.
A pesquisa também envolveu cães domésticos que viviam com famílias. Dessa forma, os resultados não permitem concluir que cães de rua ou animais com experiências sociais diferentes apresentariam exatamente os mesmos padrões.
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A domesticação pode ter moldado essa habilidade
A capacidade de acompanhar sinais humanos provavelmente não surgiu por acaso. Ao longo de milhares de anos de convivência, cães foram selecionados para prestar atenção às pessoas e cooperar com elas.
Essa relação pode ter favorecido habilidades sociais particularmente sofisticadas. Estudos anteriores já haviam identificado respostas cerebrais de cães a rostos humanos, incluindo atividade no córtex temporal durante a percepção facial.
O novo trabalho acrescenta uma peça importante a esse quebra-cabeça: o cérebro canino parece registrar diferenças mais específicas entre algumas expressões humanas, mostrando que a comunicação entre as duas espécies pode ser ainda mais refinada do que o comportamento cotidiano deixa perceber.
