A adolescência é uma fase em que o cérebro passa por transformações intensas, especialmente em funções relacionadas à memória, atenção, linguagem e capacidade de processar informações. Por isso, mudanças ocorridas nesse período podem ter importância para o aprendizado e para o desempenho cotidiano.
Um novo estudo longitudinal encontrou uma associação que chama atenção: adolescentes que começaram a usar cannabis apresentaram uma evolução mais lenta em diferentes medidas cognitivas ao longo do desenvolvimento, em comparação com jovens que não haviam iniciado o uso.
A pesquisa acompanhou 11.036 participantes, inicialmente avaliados aos 9 ou 10 anos e acompanhados até aproximadamente os 16 ou 17 anos. Os resultados foram publicados em 20 de abril de 2026 na revista científica Neuropsychopharmacology, tendo Natasha E. Wade como primeira autora.
A diferença apareceu justamente durante uma fase de grandes mudanças
O cérebro não permanece estático durante a adolescência. Nesse período, circuitos envolvidos no controle da atenção, memória, tomada de decisões e processamento de informações continuam amadurecendo.
Os pesquisadores utilizaram dados do Adolescent Brain Cognitive Development Study (ABCD) para acompanhar mudanças cognitivas ao longo dos anos. Além dos relatos dos próprios participantes, foram incorporadas informações de exames toxicológicos, incluindo análises de cabelo, urina e outros materiais biológicos.
Essa combinação ajudou a identificar exposições à cannabis que poderiam não aparecer apenas nos questionários.
Entre os jovens que iniciaram o uso, os pesquisadores observaram trajetórias de desenvolvimento cognitivo menos acentuadas em diferentes domínios, incluindo:
- Memória imediata e tardia
- Velocidade de processamento
- Controle inibitório
- Processamento visuoespacial
- Linguagem
- Memória de trabalho
Um detalhe é especialmente interessante: os participantes que posteriormente usaram cannabis não necessariamente apresentavam desempenho inferior desde o início. Em alguns casos, eles tinham desempenho semelhante ou até melhor na infância. A diferença apareceu na velocidade com que essas habilidades evoluíram posteriormente.
THC apareceu ligado a uma alteração mais específica na memória
A pesquisa também investigou a presença de diferentes canabinoides em uma parcela dos participantes. Nessa análise, a exposição ao THC, principal componente psicoativo da cannabis, esteve associada a uma pior trajetória de memória episódica.
O resultado foi diferente para o CBD: não houve diferença significativa entre participantes com exposição ao CBD e aqueles do grupo de controle nessa análise específica. Entretanto, o número de participantes avaliados nessa etapa foi consideravelmente menor, portanto o resultado precisa ser interpretado com cautela.
Essa distinção é importante porque a cannabis não é uma substância quimicamente uniforme. Produtos podem apresentar diferentes concentrações e combinações de canabinoides, o que torna inadequado atribuir todos os possíveis efeitos a uma única molécula.
Associação não significa causa direta
Apesar dos resultados, o estudo não permite afirmar que a cannabis, sozinha, tenha causado o desenvolvimento cognitivo mais lento.
Pesquisas desse tipo precisam considerar diversos fatores que também podem influenciar o desenvolvimento cerebral. Por isso, os modelos estatísticos levaram em conta variáveis como características sociodemográficas, histórico familiar de transtornos relacionados ao uso de substâncias, exposição pré-natal, sintomas psicopatológicos e uso de outras substâncias.
Ainda assim, o desenho longitudinal é relevante porque permite observar como o desempenho muda dentro dos próprios indivíduos ao longo do tempo, em vez de comparar apenas dois grupos em um determinado momento.
Por que pequenas diferenças podem chamar atenção?
Uma alteração discreta em um teste cognitivo isolado não significa necessariamente que um adolescente terá problemas acadêmicos ou funcionais.
Porém, durante uma fase de desenvolvimento acelerado, o ritmo de evolução de habilidades como memória, atenção e processamento de informações pode ser importante. Essas capacidades participam de tarefas presentes diariamente na escola e em outras atividades.
O acompanhamento dos participantes continuará sendo fundamental. Os autores destacam que novas avaliações poderão esclarecer melhor como idade de início e padrão de uso se relacionam às trajetórias cognitivas conforme esses jovens chegam à vida adulta.
