Adicionar uma pitada de pimenta vermelha na comida pode reconfigurar a forma como seu corpo queima gordura no repouso 

A capsaicina é o composto responsável pela ardência. (Imagem: Fala Ciência)

A pimenta vermelha pode fazer mais do que acrescentar sabor e ardência às refeições. Seu principal composto picante, a capsaicina, vem sendo estudado por seus efeitos sobre o gasto energético, a termogênese, a oxidação de gordura e a sensação de saciedade.

A relação se torna especialmente interessante durante períodos de balanço energético negativo, situação em que o organismo recebe menos energia do que gasta. Nessa condição, o corpo pode realizar adaptações para economizar energia, dificultando a manutenção da perda de peso.

Uma das respostas estudadas é a chamada termogênese adaptativa. E é justamente nesse mecanismo que a capsaicina pode ter um papel.

A ardência da pimenta desencadeia respostas metabólicas

Como a capsaicina aumenta o gasto calórico e a queima de gordura. (Imagem: Fala Ciência)

A capsaicina é o composto responsável pela sensação de calor característica das pimentas. Quando consumida, ela interage com receptores sensíveis a estímulos térmicos e químicos, desencadeando respostas fisiológicas que podem influenciar o metabolismo.

Entre os efeitos investigados estão alterações no gasto energético e na maneira como o organismo utiliza seus combustíveis.

Um dos indicadores usados pelos pesquisadores é o quociente respiratório, ou QR. De forma simplificada, uma redução desse índice sugere que uma proporção maior da energia está sendo obtida a partir da oxidação de gordura.

Por isso, o QR é importante para entender os resultados observados nos estudos com capsaicina.

24 estudos ajudaram a revelar como a capsaicina age no organismo 

Uma revisão publicada na revista científica Nutrition Reviews em 26 de maio de 2026, liderada por Mary-Jon Ludy, atualizou uma revisão anterior e incorporou pesquisas publicadas até 2024.

Ao todo, foram analisadas 22 publicações correspondentes a 24 estudos controlados randomizados. Os pesquisadores avaliaram os efeitos de doses culinárias de pimenta vermelha sobre gasto energético, quociente respiratório, apetite e ingestão energética.

Nos estudos de uma única refeição, as mudanças no gasto energético e no QR não alcançaram significância estatística. Já nas pesquisas de longo prazo, o gasto energético também não apresentou alteração estatisticamente significativa.

Entretanto, o cenário foi diferente para o quociente respiratório. Os estudos de longo prazo mostraram valores consistentemente menores, indicando uma maior participação da oxidação de gordura.

A resposta ficou mais interessante durante o déficit energético

Os pesquisadores também incorporaram estudos realizados em câmaras respiratórias durante 24 horas, comparando capsaicina isoladamente e capsaicina combinada com maior ingestão de proteína.

Nessas condições, o aumento do gasto energético durante o balanço energético negativo não foi estatisticamente significativo na análise geral. Alguns estudos individuais, entretanto, sugeriram um aumento modesto do gasto energético em comparação com o placebo.

O resultado mais consistente apareceu novamente no QR.

A capsaicina reduziu significativamente o quociente respiratório durante o balanço energético negativo e quando associada a uma alimentação com maior quantidade de proteína. Isso indica uma maior oxidação de gordura nessas condições.

Além disso, a capsaicina também ajudou a contrabalançar a queda da sensação de saciedade observada durante o balanço energético negativo.

Pimenta não impede completamente a adaptação do organismo

Apesar dos resultados interessantes, existe uma diferença importante entre atenuar uma resposta metabólica e eliminá-la.

A revisão concluiu que doses culinárias de capsaicina não impedem completamente a termogênese adaptativa. Entretanto, podem diminuir seu impacto durante períodos de balanço energético negativo, principalmente quando combinadas com maior ingestão de proteína.

Esse detalhe é importante porque evita transformar o resultado em uma promessa exagerada de aceleração metabólica.

Os efeitos de longo prazo sobre o gasto energético permanecem pequenos. Por outro lado, as reduções sustentadas no QR sugerem que a capsaicina pode favorecer uma maior utilização de gordura como combustível em determinadas condições.

O efeito mais interessante pode estar além das calorias

A pesquisa também analisou apetite e ingestão energética, mas os resultados foram mistos entre os estudos.

Nas avaliações realizadas em condições de balanço energético negativo, entretanto, a capsaicina conseguiu atenuar a redução da saciedade. Esse efeito pode ser relevante porque a fome aumentada e a menor sensação de satisfação são desafios comuns durante períodos de restrição energética.

Assim, o possível benefício da pimenta não está necessariamente em provocar uma grande elevação do gasto calórico.

O cenário observado é mais sutil: maior oxidação de gordura, possível melhora da saciedade e atenuação parcial da termogênese adaptativa em determinadas condições.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn