O buraco negro que teve uma inesperada indigestão cósmica desafia tudo o que sabíamos 

Buraco negro surpreende ao expelir parte da matéria durante e após intensa fase de alimentação. (Imagem: Fala Ciência)

Os buracos negros costumam ser descritos como regiões do Universo das quais nada consegue escapar. Entretanto, uma nova pesquisa mostra que essa imagem é incompleta. Durante um intenso episódio de alimentação, um buraco negro não apenas absorveu matéria de uma estrela vizinha, mas também lançou uma quantidade surpreendente desse material de volta ao espaço, revelando um comportamento muito mais dinâmico do que os modelos tradicionais sugeriam.

O estudo foi publicado em 2026 na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, tendo N. Castro Segura como autor principal. As observações acompanharam o sistema Swift J1727.8−1613, cuja explosão foi detectada em 2023 e monitorada em detalhes pelo Very Large Telescope (VLT) do Observatório Europeu do Sul.

Uma explosão rara permitiu observar o processo em tempo real

O sistema estudado é formado por um buraco negro e uma estrela companheira. A intensa gravidade do buraco negro retira gás da estrela, formando um disco de acreção, uma estrutura composta por matéria extremamente quente que gira em alta velocidade antes de cruzar o horizonte de eventos.

Essas explosões são relativamente raras e oferecem uma oportunidade única para acompanhar como o sistema evolui ao longo do tempo.

Em vez de registrar apenas um momento isolado, os pesquisadores acompanharam toda a sequência da explosão, observando como o brilho, o disco e os fluxos de matéria mudaram durante diferentes fases do fenômeno.

O buraco negro também devolve parte do que recebe

As análises revelaram que, enquanto absorvia material, o sistema produzia simultaneamente jatos relativísticos e ventos de disco, lançando gás para o espaço.

Essa descoberta indica que os buracos negros funcionam como sistemas altamente eficientes de redistribuição de matéria e energia.

Entre os principais resultados observados estão:

  • Jatos de matéria sendo lançados durante a fase ativa.
  • Ventos densos persistindo mesmo após a diminuição da atividade.
  • Alterações importantes na estrutura do disco de acreção ao longo da explosão.

Esses processos mostram que uma parcela significativa da matéria retirada da estrela pode nunca ser incorporada definitivamente ao buraco negro.

A maior surpresa apareceu quando tudo parecia terminar

O resultado mais intrigante surgiu justamente quando a explosão já estava perdendo intensidade.

Mesmo após a emissão de raios X cair para aproximadamente 1% do brilho máximo, o sistema continuava produzindo fortes ventos de gás.

Isso sugere que o mecanismo responsável pela ejeção de matéria permanece ativo por muito mais tempo do que se imaginava.

Na prática, o chamado “fim” da explosão pode continuar modificando o ambiente ao redor do buraco negro durante um período prolongado.

Essa persistência ajuda a explicar como esses objetos influenciam o gás interestelar e podem participar da evolução de sistemas binários em nossa galáxia.

Uma nova visão sobre o comportamento dos buracos negros

Durante muitos anos, os buracos negros foram vistos principalmente como objetos que apenas acumulavam matéria. Contudo, observações cada vez mais detalhadas revelam um cenário diferente.

Além de consumir material, eles também:

  • Redistribuem gás para o espaço.
  • Produzem jatos extremamente energéticos.
  • Alteram a estrutura do disco de acreção.
  • Continuam expulsando matéria mesmo após o pico da atividade.

Publicado na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society em 2026, o estudo liderado por N. Castro Segura oferece uma das descrições mais completas já obtidas sobre uma explosão de buraco negro. Os resultados indicam que esses objetos não atuam apenas como consumidores de matéria, mas também como importantes agentes de transformação do ambiente cósmico, devolvendo ao Universo parte daquilo que aparentemente haviam engolido.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes