Por que os remédios para ansiedade e depressão costumam aumentar os sintomas nas primeiras 2 semanas de uso? 

Neurotransmissores participam do controle emocional. (Imagem: Fala Ciência)

Começar um tratamento para ansiedade ou depressão pode trazer uma sensação inesperada: em vez de melhora imediata, algumas pessoas percebem que determinados sintomas parecem ficar mais intensos nos primeiros dias ou semanas.

Essa reação pode gerar medo e até levar ao abandono do tratamento. Porém, esse fenômeno é conhecido na medicina e está relacionado ao processo de adaptação do cérebro aos medicamentos, especialmente os antidepressivos que atuam sobre neurotransmissores como serotonina e noradrenalina.

O organismo não muda seus padrões emocionais de forma instantânea. Embora o medicamento comece a agir em determinadas vias químicas rapidamente, os efeitos relacionados à melhora do humor e da ansiedade dependem de ajustes mais complexos no funcionamento cerebral.

O início do tratamento pode ser uma fase de adaptação cerebral

Do ajuste inicial ao bem-estar: entenda as fases do tratamento. (Imagem: Fala Ciência)

Os antidepressivos modificam a comunicação entre os neurônios, mas o cérebro precisa de tempo para reorganizar sua resposta a essas alterações.

Nas primeiras semanas, algumas pessoas podem apresentar mudanças temporárias, como:

  • Aumento da inquietação.
  • Sensação maior de ansiedade.
  • Alterações no sono.
  • Náuseas ou desconfortos físicos.
  • Oscilações emocionais.

Isso acontece porque os sistemas envolvidos no controle das emoções ainda estão se ajustando. Com o passar do tempo, essas respostas iniciais podem diminuir enquanto os efeitos terapêuticos começam a aparecer.

Por que a ansiedade pode parecer pior antes de melhorar?

A relação entre medicamentos e ansiedade envolve diferentes mecanismos cerebrais.

No começo do tratamento, o aumento da atividade de determinados neurotransmissores pode influenciar regiões ligadas ao estado de alerta e à resposta ao estresse. Em algumas pessoas, isso pode gerar uma sensação temporária de maior ativação.

Entretanto, isso não significa automaticamente que o medicamento não funcionará. A resposta varia bastante entre indivíduos e depende do tipo de medicamento, da dose utilizada e das características de cada organismo.

Estudo analisou a piora inicial dos sintomas durante tratamento antidepressivo

Uma pesquisa publicada na revista científica The Journal of Clinical Psychiatry, em janeiro de 2007, liderada pela pesquisadora Cristina Cusin, avaliou a ocorrência de piora inicial dos sintomas em pacientes com transtorno depressivo maior tratados com fluoxetina.

O estudo analisou 694 pacientes durante até 12 semanas de acompanhamento e identificou que uma parcela dos participantes apresentou agravamento dos sintomas nas primeiras semanas de tratamento. Os pesquisadores observaram que essa piora inicial estava associada a uma menor probabilidade de resposta completa ao tratamento em alguns casos, mostrando a importância do acompanhamento clínico durante esse período.

Esses dados ajudam a compreender por que as primeiras semanas podem ser uma etapa delicada e que mudanças nos sintomas precisam ser avaliadas individualmente.

A melhora dos antidepressivos costuma acontecer gradualmente

Entenda as fases do tratamento e a importância do acompanhamento contínuo.(Imagem: Fala Ciência)

Muitos antidepressivos não apresentam seu efeito completo logo nos primeiros dias. A melhora de sintomas como tristeza persistente, preocupação excessiva, falta de energia e perda de interesse geralmente ocorre de forma progressiva.

Durante esse período, é importante:

  • Manter o acompanhamento com o profissional responsável.
  • Informar qualquer piora significativa dos sintomas.
  • Não interromper o medicamento sem orientação.
  • Observar como o organismo responde ao longo das semanas.

A adaptação inicial faz parte da complexidade do tratamento, mas cada pessoa apresenta uma evolução diferente.

Entender a fase inicial ajuda a manter o tratamento adequado

A piora temporária de alguns sintomas após iniciar medicamentos para ansiedade e depressão pode acontecer porque o cérebro está passando por mudanças de adaptação.

Compreender esse processo evita interpretações equivocadas, como pensar que o medicamento “não funciona” logo nos primeiros dias. Ao mesmo tempo, qualquer alteração importante deve ser comunicada ao profissional de saúde.

O tratamento da saúde mental envolve tempo, acompanhamento e ajustes individualizados. Quando bem conduzido, o objetivo é permitir que o cérebro recupere gradualmente o equilíbrio dos circuitos relacionados ao humor, motivação e ansiedade.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn