Explosão invisível de buraco negro viaja como um tsunami cósmico por 300 mil anos-luz 

Buraco negro supermassivo impulsiona ventos gigantes que atravessam 300 mil anos-luz e remodelam o cosmos. (Imagem: Universidade de Tohoku)

Os buracos negros supermassivos costumam ser lembrados por sua enorme capacidade de atrair matéria. Entretanto, uma nova pesquisa mostra que eles também podem atuar como verdadeiros motores cósmicos, lançando enormes quantidades de energia para muito além das galáxias onde estão localizados. O estudo, liderado por Satoshi Yamada e publicado na revista Nature Astronomy em 2026, revela que esses ventos possuem uma intensidade cerca de 100 vezes maior do que as estimativas anteriores.

A descoberta altera significativamente a compreensão sobre a influência dos buracos negros na evolução das galáxias e até mesmo na distribuição de matéria pelo Universo. Em vez de afetarem apenas suas vizinhanças imediatas, esses objetos extremos podem modificar regiões que se estendem por aproximadamente 300 mil anos-luz, distância equivalente a cerca de três vezes o diâmetro da Via Láctea.

Um quasar revelou um fenômeno muito mais energético

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram o quasar H1821+643, localizado na constelação de Draco, a cerca de 3,4 bilhões de anos-luz da Terra. Os quasares estão entre os objetos mais luminosos do Universo porque são alimentados por buracos negros supermassivos que consomem enormes quantidades de gás.

As observações foram realizadas pelo satélite japonês de raios X XRISM, capaz de medir com alta precisão a movimentação do gás extremamente quente presente ao redor desses objetos.

Ao analisar a emissão produzida por íons de ferro, os cientistas conseguiram determinar a velocidade e a dinâmica do material aquecido, revelando um cenário muito mais turbulento do que se imaginava.

Energia comparável a bilhões de explosões estelares

Os resultados indicaram que o gás quente não permanece concentrado ao redor do buraco negro. Pelo contrário, ele é impulsionado por ventos extremamente energéticos, capazes de atravessar toda a galáxia hospedeira e alcançar o espaço intergaláctico.

Os cálculos mostraram que a energia envolvida nesse processo equivale à produzida por vários bilhões de explosões de supernovas, tornando esse um dos mecanismos mais poderosos conhecidos para redistribuir matéria e energia no cosmos.

Entre os principais resultados observados estão:

  • Ventos aproximadamente 100 vezes mais energéticos do que o previsto.
  • Propagação do gás por cerca de 300 mil anos-luz.
  • Turbulência intensa no gás quente que envolve o aglomerado de galáxias.
  • Influência direta do buraco negro muito além da galáxia onde ele reside.

Os buracos negros moldam regiões muito maiores do Universo

Até pouco tempo, acreditava-se que a ação desses ventos permanecia praticamente confinada ao interior das galáxias. No entanto, os novos dados indicam que sua influência alcança o ambiente intergaláctico, movimentando grandes quantidades de gás e alterando a circulação de matéria em escalas gigantescas.

Esse transporte de energia pode interferir diretamente em processos importantes, como o resfriamento do gás, a formação de novas estrelas e a própria evolução dos aglomerados de galáxias ao longo de bilhões de anos.

Com isso, os buracos negros supermassivos deixam de ser vistos apenas como consumidores de matéria e passam a ocupar um papel central na dinâmica do Universo em larga escala.

Próximas observações poderão revelar novos detalhes

Os pesquisadores pretendem ampliar esse tipo de investigação utilizando futuras observações do XRISM e de outros telescópios espaciais especializados em raios X.

O objetivo será compreender com maior precisão como esses ventos cósmicos transportam energia, influenciam a circulação dos elementos químicos e modificam o ambiente ao redor dos maiores buracos negros conhecidos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes