Nas sociedades de insetos, a cooperação é essencial para a sobrevivência da colônia. Mas por que algumas fêmeas abrem mão de se reproduzir para ajudar a mãe a criar novos descendentes, enquanto outras deixam o ninho para fundar suas próprias colônias? Um novo estudo traz uma resposta surpreendente: a rainha pode influenciar essa decisão por meio de sinais químicos invisíveis, conhecidos como feromônios.
A descoberta foi feita com a abelha-do-suor-noturna-de-faces-largas (Megalopta genalis), uma espécie considerada um excelente modelo para investigar como surgiram as primeiras sociedades de insetos. Os resultados ajudam a compreender não apenas o comportamento dessas abelhas, mas também os mecanismos evolutivos que favoreceram o aparecimento da cooperação ao longo da história da vida.
A pesquisa foi publicada em 2026 na revista Proceedings of the Royal Society B, em estudo liderado por Callum Kingwell e colaboradores.
Uma escolha que define todo o futuro da colônia
Quando atingem a fase adulta, as filhas dessas abelhas enfrentam uma decisão fundamental. Elas podem:
- Permanecer no ninho como operárias, auxiliando a rainha.
- Assumir o lugar da mãe, caso ela desapareça.
- Abandonar a colônia para construir um novo ninho e se reproduzir de forma independente.
Essa escolha influencia diretamente o sucesso reprodutivo da família e, consequentemente, a transmissão dos genes para as próximas gerações.
Até agora, porém, os cientistas não sabiam exatamente quais fatores levavam cada indivíduo a seguir um desses caminhos.
O cheiro da rainha transmite muito mais que identidade
Para responder a essa questão, os pesquisadores acompanharam centenas de ninhos artificiais instalados na Ilha de Barro Colorado, no Panamá.
As abelhas foram identificadas individualmente e monitoradas durante anos por meio de gravações em vídeo e análises comportamentais. Paralelamente, os cientistas examinaram os compostos químicos presentes na superfície do corpo das rainhas utilizando técnicas como cromatografia gasosa e espectrometria de massa.
Os resultados revelaram que os feromônios da rainha desempenham duas funções importantes ao mesmo tempo.
Primeiro, durante um período crítico do desenvolvimento das filhas, esses compostos ajudam a reduzir o desenvolvimento dos ovários, diminuindo temporariamente sua capacidade reprodutiva.
Além disso, os mesmos sinais químicos parecem funcionar como um verdadeiro indicador da condição reprodutiva da rainha.
Um sinal químico que incentiva a cooperação
Os pesquisadores observaram que rainhas com maiores níveis de feromônios tinham filhas significativamente mais propensas a permanecer no ninho ajudando na criação de novos indivíduos.
Em outras palavras, os sinais químicos parecem informar que investir na colônia ainda representa uma estratégia vantajosa do ponto de vista evolutivo.
Essa descoberta sugere que os feromônios não atuam apenas como substâncias de comunicação, mas também ajudam as filhas a avaliar quando vale mais a pena colaborar do que iniciar uma nova colônia.
Uma pista sobre a origem das sociedades de insetos
As chamadas abelhas-do-suor apresentam um comportamento social flexível. Algumas populações vivem de forma solitária, enquanto outras desenvolvem pequenas sociedades organizadas.
Por isso, elas representam um excelente modelo para investigar como estruturas sociais complexas podem ter surgido durante a evolução.
Segundo os autores, este é o primeiro feromônio de rainha identificado em um inseto social flexível, tornando a descoberta especialmente relevante para compreender as etapas iniciais da evolução da vida em sociedade.
Muito além das abelhas
Embora o estudo tenha sido realizado com Megalopta genalis, seus resultados podem contribuir para diversas áreas da ciência. Entre elas estão:
- Biologia evolutiva.
- Ecologia comportamental.
- Comunicação química entre animais.
- Evolução da cooperação social.
- Estudos sobre organização de sociedades de insetos.
Os resultados publicados por Callum Kingwell e colaboradores na revista Proceedings of the Royal Society B, em 2026, mostram que um simples conjunto de feromônios pode influenciar decisões capazes de alterar toda a dinâmica de uma colônia. Ao revelar como a comunicação química orienta escolhas individuais, a pesquisa oferece uma nova perspectiva sobre a origem da cooperação, um dos comportamentos mais importantes para o sucesso evolutivo de inúmeras espécies.
