Oferecer apenas uma uva ou pedaço de cebola para o cão pode disparar uma reação perigosa nos rins e no sangue 

Uvas e outros alimentos podem causar riscos aos cães. (Imagem: Fala Ciência)

Um pedido com os olhos atentos, uma pequena porção retirada do prato e um gesto de carinho parecem atitudes simples para muitos tutores. Porém, alguns alimentos comuns na alimentação humana escondem substâncias capazes de provocar reações perigosas no organismo dos cães.

Entre os exemplos mais conhecidos estão uvas, passas, cebolas e alho, ingredientes presentes em muitas casas, mas que podem afetar sistemas importantes do animal, principalmente os rins e o sangue.

O problema é que a resposta varia bastante entre os cães. Alguns animais podem desenvolver alterações importantes após a ingestão, enquanto outros apresentam sinais mais discretos no início. Por isso, especialistas recomendam evitar oferecer esses alimentos, mesmo em pequenas quantidades.

A uva pode desencadear uma reação perigosa nos rins

Infográfico sobre a toxicidade de uvas e seus efeitos renais em cães. (Imagem: Fala Ciência)

A intoxicação por uvas e passas em cães é um dos casos que mais chama atenção na medicina veterinária. Durante anos, pesquisadores investigaram quais componentes desses frutos estavam relacionados aos danos provocados no organismo dos animais.

Atualmente, evidências indicam que o ácido tartárico presente nas uvas está associado ao desenvolvimento de lesão renal aguda em cães suscetíveis.

Quando os rins são afetados, eles deixam de realizar adequadamente uma de suas principais funções: filtrar o sangue e eliminar substâncias que precisam ser removidas do organismo.

Os primeiros sinais podem incluir:

  • Vômitos.
  • Falta de apetite.
  • Cansaço intenso.
  • Sonolência excessiva.
  • Alterações no consumo de água.
  • Mudanças na produção de urina.

O grande desafio é que os sintomas nem sempre aparecem imediatamente, fazendo com que alguns tutores demorem a perceber que existe um problema.

A cebola pode comprometer as células responsáveis pelo transporte de oxigênio

Enquanto as uvas estão relacionadas principalmente aos rins, a cebola e outros alimentos do grupo Allium, como alho e cebolinha, apresentam outro mecanismo de toxicidade.

Esses alimentos possuem compostos capazes de causar danos oxidativos nas hemácias, as células vermelhas do sangue responsáveis pelo transporte de oxigênio para os tecidos.

Quando ocorre destruição dessas células, o cão pode desenvolver anemia, reduzindo a capacidade do organismo de manter uma oxigenação adequada.

Entre os sinais que merecem atenção estão:

  • Fraqueza.
  • Apatia.
  • Menor disposição para atividades.
  • Mucosas mais claras.
  • Respiração acelerada.

A gravidade depende da quantidade ingerida, do tamanho do animal e da frequência de exposição.

Pesquisa veterinária desvenda os danos causados pela intoxicação por uvas 

Um estudo publicado na revista científica Journal of Veterinary Internal Medicine, em setembro de 2020, liderado por Ariane Schweighauser, avaliou casos de cães intoxicados após o consumo de uvas ou passas.

O trabalho analisou cães que desenvolveram complicações após a ingestão desses alimentos.

Os pesquisadores identificaram que os animais apresentaram principalmente lesão renal aguda, uma condição capaz de comprometer o funcionamento dos rins. Além disso, alguns cães desenvolveram alterações neurológicas, mostrando que a intoxicação pode afetar diferentes sistemas do organismo.

Os resultados também destacaram que a resposta dos cães não é totalmente previsível, já que fatores individuais influenciam a evolução do quadro. Por esse motivo, a recomendação veterinária é tratar uvas e passas como alimentos de risco para todos os cães.

Outros alimentos da cozinha também exigem cuidado

Além das uvas e cebolas, outros itens comuns podem representar perigo para os cães.

Entre eles estão:

  • Chocolate.
  • Café e bebidas com cafeína.
  • Bebidas alcoólicas.
  • Alimentos com determinados adoçantes artificiais.

Muitos desses produtos fazem parte da rotina das famílias, o que aumenta a chance de uma ingestão acidental.

A prevenção começa nos pequenos hábitos

A vontade do cão de experimentar tudo que o tutor come é natural, mas nem sempre compartilhar alimentos é uma demonstração segura de carinho.

Manter uma alimentação adequada para a espécie e conhecer quais ingredientes devem ser evitados são atitudes simples que ajudam a proteger a saúde do animal.

Caso o cão ingira algum alimento potencialmente tóxico, a orientação é buscar avaliação veterinária o quanto antes. A rapidez no atendimento pode ser decisiva para evitar complicações mais graves.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes