A NASA passou raspando por Marte e registrou imagens que quase ninguém já viu

Sonda Psyche registra Marte durante sobrevoo histórico rumo a um misterioso asteroide metálico. (Imagem: NASA/JPL-Caltech/ASU)

Viajar pelo Sistema Solar exige muito mais do que motores potentes. Em muitos casos, as missões espaciais aproveitam a própria gravidade dos planetas para ganhar velocidade e economizar combustível. Foi exatamente isso que aconteceu com a sonda Psyche, da NASA, que realizou um sobrevoo preciso de Marte e, além de receber um impulso gravitacional estratégico, coletou imagens impressionantes e dados científicos importantes para sua missão.

A manobra representa um passo decisivo na jornada da espaçonave até o asteroide Psyche, um objeto rico em metais localizado no cinturão principal entre Marte e Júpiter, onde a chegada está prevista para 2029.

Marte funcionou como um enorme estilingue espacial

Em 15 de maio, a sonda passou a cerca de 4.609 quilômetros da superfície marciana. Nesse tipo de operação, conhecido como assistência gravitacional, a gravidade do planeta altera a velocidade e a trajetória da espaçonave sem a necessidade de grande consumo de combustível.

Essa técnica é amplamente utilizada na exploração espacial porque permite alcançar destinos distantes de forma muito mais eficiente.

Além de colocar a missão na rota correta, o encontro serviu como um verdadeiro laboratório para testar todos os principais instrumentos científicos antes da chegada ao alvo definitivo.

Muito mais do que uma simples passagem

Durante o sobrevoo, diversos equipamentos operaram simultaneamente, permitindo verificar seu desempenho em um ambiente planetário conhecido.

Entre os principais testes realizados estão:

  • Registro de imagens multiespectrais de Marte.
  • Medição do campo magnético marciano.
  • Detecção de partículas energéticas.
  • Observação de nêutrons emitidos pela superfície do planeta.
  • Monitoramento das luas Fobos e Deimos.

Como Marte já é amplamente estudado por diversas missões, os cientistas poderão comparar os novos dados com informações obtidas anteriormente, validando a precisão dos instrumentos.

Imagens revelam um Marte visto por um ângulo incomum

Um dos destaques da missão foi o sistema de câmeras da Psyche, desenvolvido para estudar futuramente o asteroide metálico.

Durante aproximadamente um mês, a espaçonave registrou uma sequência de imagens que foi transformada em um vídeo em timelapse mostrando sua aproximação e afastamento de Marte.

Inicialmente, o planeta apareceu como um fino crescente iluminado devido ao ângulo entre o Sol, Marte e a sonda. Conforme a aproximação aumentava, surgiram detalhes impressionantes da superfície.

Entre as estruturas registradas estão:

  • A calota polar sul.
  • Grandes crateras de impacto, incluindo Huygens.
  • Formações moldadas pelos ventos marcianos.
  • As pequenas luas Fobos e Deimos, observadas a longa distância.

Essas imagens também servem para calibrar as câmeras antes da exploração do asteroide Psyche.

Nêutrons e magnetismo ajudam a entender Marte

Outro equipamento importante foi o espectrômetro de raios gama e nêutrons, projetado para identificar a composição química de corpos celestes.

Embora a distância da passagem não permitisse detectar raios gama provenientes de Marte, o instrumento registrou um aumento na emissão de nêutrons, exatamente como previsto pelos modelos científicos. Esse resultado confirmou o excelente funcionamento do sistema.

Ao mesmo tempo, o magnetômetro mediu alterações no campo magnético marciano causadas pela interação entre o vento solar e a atmosfera do planeta. Essas informações ajudam a validar o instrumento que futuramente investigará se o asteroide Psyche pode representar o núcleo metálico remanescente de um antigo planeta em formação.

O próximo destino guarda um dos maiores mistérios do Sistema Solar

Depois da assistência gravitacional, a missão segue em direção ao seu objetivo principal. Diferentemente da maioria dos asteroides, o Psyche apresenta grande quantidade de metais, tornando-se um dos objetos mais intrigantes já explorados.

Os cientistas esperam responder questões fundamentais sobre a formação dos planetas rochosos e compreender se esse corpo pode realmente representar um núcleo planetário exposto após bilhões de anos de colisões.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes