Olhar o celular ao acordar pode desregular sua química de humor pelo resto do dia

Pensamentos acelerados podem dificultar o início do sono. (Imagem: Fala Ciência)

O despertador toca, os olhos se abrem e, antes mesmo de levantar da cama, muitas pessoas já estão deslizando o dedo pela tela do celular. Mensagens, redes sociais, notícias e notificações entram na rotina em poucos segundos, criando um dos primeiros estímulos recebidos pelo cérebro naquele dia.

Embora esse hábito pareça inofensivo, pesquisadores vêm investigando como o uso do smartphone logo após acordar pode influenciar processos ligados à atenção, ao estresse e ao equilíbrio emocional.

A ciência ainda não comprova que olhar o celular nos primeiros cinco minutos da manhã altera permanentemente a química do humor. Porém, estudos indicam que a exposição frequente a estímulos digitais, especialmente quando envolve uso intenso ou dificuldade de controle, está associada a mudanças no bem-estar psicológico.

O cérebro acorda em uma fase de adaptação

O momento logo após despertar envolve uma transição importante para o organismo. O cérebro sai de um estado de repouso e começa a aumentar gradualmente a atividade relacionada ao estado de alerta, concentração e tomada de decisões.

Quando o primeiro estímulo do dia é uma sequência rápida de informações, o sistema de atenção pode ser direcionado imediatamente para demandas externas.

Esse padrão pode favorecer:

  • Maior sensação de urgência.
  • Dificuldade para iniciar tarefas importantes.
  • Distrações frequentes ao longo do dia.
  • Necessidade constante de verificar novas atualizações.

O impacto depende muito do tipo de conteúdo consumido. Uma mensagem importante de trabalho, por exemplo, gera uma resposta diferente de uma sequência prolongada de notícias negativas ou comparações em redes sociais.

Notificações ativam ciclos de recompensa e atenção

Entenda o ciclo de recompensa das notificações e os sinais de uso excessivo. (Imagem: Fala Ciência)

O smartphone foi desenvolvido para facilitar comunicação e acesso à informação, mas também utiliza mecanismos que estimulam o retorno frequente ao aparelho.

Cada nova notificação pode funcionar como um sinal de novidade para o cérebro, aumentando a expectativa por uma possível recompensa.

Com o tempo, algumas pessoas desenvolvem o hábito automático de verificar a tela várias vezes ao dia, mesmo sem uma necessidade real.

Entre os sinais de uso excessivo estão:

  • Abrir aplicativos sem perceber.
  • Sentir desconforto ao ficar longe do aparelho.
  • Interromper atividades para conferir notificações.
  • Ter dificuldade para reduzir o tempo de uso.

Pesquisa investigou a relação entre celular e saúde mental

Um estudo publicado na revista científica Acta Psychologica, em 2026, liderado por Li Min Wang, analisou padrões temporais de uso do smartphone e sua relação com sintomas relacionados à saúde mental.

O trabalho avaliou como diferentes momentos e formas de interação com o celular estavam associados a indicadores emocionais.

Os pesquisadores observaram que o contexto do uso influencia a relação entre exposição digital e bem-estar psicológico. O estudo identificou uma associação entre maior uso do telefone pela manhã e relatos de ansiedade, embora os autores ressaltem que os resultados mostram relação estatística e não comprovam que o celular seja a causa direta dos sintomas.

Pequenos ajustes podem mudar o começo do dia

Evitar o celular imediatamente ao acordar pode ser uma estratégia simples para criar um momento de transição entre o sono e a rotina.

Algumas alternativas incluem:

  • Levantar antes de conferir mensagens.
  • Abrir a janela e receber luz natural.
  • Fazer alongamentos rápidos.
  • Beber água.
  • Planejar as primeiras tarefas antes de acessar redes sociais.

Esses hábitos ajudam a colocar o cérebro novamente no controle da atenção, reduzindo a chance de começar o dia reagindo apenas aos estímulos externos.

O problema não é o celular, mas a forma de uso

O smartphone trouxe benefícios importantes para comunicação, trabalho e acesso ao conhecimento. O desafio está no uso automático e excessivo, principalmente quando ele substitui momentos de descanso mental ou organização da rotina.

Começar o dia longe das notificações por alguns minutos pode ser uma maneira simples de recuperar mais controle sobre a atenção e criar uma manhã menos acelerada.

A relação entre tecnologia e humor é complexa, mas uma coisa já está clara: o momento e a forma como usamos o celular fazem diferença na experiência diária.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn