Hubble registra projéteis cósmicos viajando a 32 milhões de km/h na Via Láctea

Hubble registra misteriosos projéteis cósmicos após rara explosão estelar na Via Láctea. (Imagem: John Mills / Universidade de Warwick)

O Telescópio Espacial Hubble voltou a surpreender a comunidade científica ao registrar um fenômeno extremamente raro na Via Láctea. Novas observações da estrela V445 Puppis revelaram que a explosão ocorrida no sistema lançou pequenos aglomerados de gás, apelidados de balas cósmicas, viajando a impressionantes 32,2 milhões de quilômetros por hora. O achado oferece uma oportunidade única para compreender um dos tipos mais incomuns de explosão estelar conhecidos pela astronomia.

Os resultados foram apresentados durante a Reunião Nacional de Astronomia da Royal Astronomical Society, em julho de 2026. O estudo foi liderado por John Mills e colaboradores, reunindo observações do Hubble, do satélite TESS, do Very Large Telescope (VLT) e de outros instrumentos capazes de revelar detalhes antes ocultos por uma espessa nuvem de poeira.

Uma explosão diferente das novas tradicionais

A V445 Puppis pertence a uma categoria extremamente rara chamada nova de hélio. Diferentemente das novas convencionais, alimentadas pelo acúmulo de hidrogênio sobre uma anã branca, esse sistema envolve a transferência de hélio proveniente de uma estrela companheira muito incomum.

As novas análises confirmaram que o sistema é formado por:

  • Uma anã branca, remanescente extremamente compacto de uma estrela semelhante ao Sol.
  • Uma estrela de hélio, que perdeu praticamente toda sua camada externa de hidrogênio.

À medida que o hélio se acumula na superfície da anã branca, pressão e temperatura aumentam até desencadear uma intensa explosão termonuclear, liberando enormes quantidades de energia e matéria.

As balas cósmicas continuam sendo um mistério

Entre todas as descobertas, o maior destaque ficou para pequenos fragmentos de gás lançados em velocidades extraordinárias. Esses projéteis parecem conter grandes quantidades de oxigênio, mas sua origem ainda não foi totalmente compreendida.

Até o momento, estruturas semelhantes não haviam sido observadas em nenhuma outra nova de hélio, tornando a V445 Puppis um objeto excepcional para a pesquisa astronômica.

Outro detalhe curioso é que esses projéteis parecem ter surgido após a explosão principal, indicando que processos físicos adicionais continuam atuando no sistema mesmo depois da erupção inicial.

Duas décadas escondidas pela poeira

Quando a explosão ocorreu, no final de 2000, enormes quantidades de poeira envolveram completamente o sistema binário. Essa barreira impediu durante mais de vinte anos que os telescópios observassem diretamente as estrelas responsáveis pelo fenômeno.

Somente após a dissipação gradual desse material foi possível utilizar os instrumentos mais modernos para reconstruir a verdadeira natureza da explosão e identificar a presença da rara estrela de hélio.

As observações também revelaram gigantescos fluxos de matéria formando estruturas que lembram asas de borboleta, estendendo-se por distâncias superiores a um trilhão de quilômetros.

Uma nova explosão pode acontecer no futuro

Os pesquisadores descobriram que a anã branca voltou a capturar material da estrela companheira. Isso indica que o sistema pode estar iniciando um novo ciclo de acúmulo de hélio, capaz de provocar outra explosão semelhante nos próximos anos ou décadas.

Esse comportamento desperta enorme interesse porque sistemas como a V445 Puppis podem representar um estágio intermediário antes do surgimento das supernovas do tipo Ia. Essas explosões são fundamentais para a cosmologia moderna, pois funcionam como velas padrão, permitindo medir distâncias entre galáxias e investigar a expansão acelerada do Universo.

Além disso, compreender como uma nova de hélio evolui ao longo do tempo poderá ajudar os cientistas a esclarecer a origem das supernovas do tipo Ia e, consequentemente, ampliar o conhecimento sobre a energia escura, um dos maiores mistérios da física atual. A V445 Puppis continua sendo um dos laboratórios naturais mais fascinantes da nossa galáxia e promete revelar novos segredos à medida que permanece sob observação contínua.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes