A camada de gelo de Europa pode esconder uma barreira quase impossível de atravessar

Oceano oculto de Europa pode ser mais inacessível do que cientistas imaginavam. (Imagem: Getty Images)

Europa, uma das luas mais fascinantes de Júpiter, guarda um dos maiores mistérios da exploração espacial: um enorme oceano de água líquida escondido sob uma camada congelada. Durante anos, cientistas imaginaram que esse reservatório poderia ser parcialmente acessível por meio de rachaduras no gelo, criando uma possível passagem entre as profundezas e a superfície.

Porém, um novo estudo sugere que essa conexão pode ser muito mais difícil do que se pensava. Pesquisadores liderados por Lujendra Ojha, da Universidade Rutgers, utilizaram modelos computacionais para investigar como a água poderia atravessar a crosta congelada de Europa. Os resultados, publicados na revista científica Nature Astronomy em 2026, indicam que essas fraturas provavelmente não funcionariam como “elevadores naturais” capazes de transportar água do oceano profundo até regiões próximas da superfície.

O gelo de Europa pode ser uma barreira muito poderosa

A possibilidade de existir um oceano subterrâneo em Europa desperta grande interesse porque reúne três elementos considerados fundamentais para a habitabilidade: água líquida, fontes de energia e compostos químicos.

Entretanto, encontrar água perto da superfície não significa necessariamente ter acesso ao oceano global escondido. Pequenos reservatórios subterrâneos podem surgir dentro da própria camada de gelo devido ao aquecimento localizado, sem qualquer ligação direta com as regiões mais profundas.

Essa diferença é essencial para futuras missões espaciais. Uma amostra de água superficial poderia revelar pouco sobre as condições existentes no oceano, onde talvez estejam os ambientes mais interessantes para procurar sinais de vida.

Fendas no gelo podem congelar antes de completar o caminho

O estudo analisou uma hipótese bastante discutida: a subida de água através de grandes rachaduras verticais chamadas diques de gelo. Esse processo seria semelhante ao criovulcanismo, fenômeno em que mundos congelados liberam água e outros materiais em vez de lava.

Contudo, os pesquisadores descobriram que a dinâmica da água em Europa seria muito diferente dos vulcões terrestres.

As simulações indicaram que:

  • a água provavelmente teria movimento turbulento e desorganizado dentro das fissuras;
  • o contato constante com o gelo extremamente frio faria a temperatura cair rapidamente;
  • cristais microscópicos de gelo poderiam se formar e bloquear o caminho.

Em algumas condições avaliadas, as rachaduras poderiam perder sua capacidade de transportar água em poucas horas, tornando a ligação entre o oceano profundo e a superfície muito improvável.

Descoberta muda a forma de procurar vida em Europa

A nova pesquisa não elimina a possibilidade de existirem ambientes habitáveis em Europa. Pelo contrário, ela ajuda a direcionar melhor os estudos científicos.

Se bolsas de água próximas da superfície forem encontradas, os cientistas precisarão investigar se elas vieram diretamente do oceano ou se foram formadas por processos internos da própria camada congelada.

Essa informação será fundamental para interpretar os dados obtidos por futuras missões, como a Europa Clipper, da NASA, e a JUICE, da Agência Espacial Europeia. Essas sondas irão analisar detalhes da superfície, composição do gelo e possíveis estruturas subterrâneas da lua de Júpiter.

Novas pistas sobre a vida além da Terra

A pesquisa publicada por Lujendra Ojha e colaboradores na Nature Astronomy (2026) apresenta uma visão mais complexa sobre Europa. O oceano subterrâneo continua sendo um dos locais mais promissores para estudar a possibilidade de vida fora da Terra, mas acessar esse ambiente pode exigir estratégias muito diferentes.

Ao revelar que o gelo pode funcionar como uma barreira mais eficiente do que os cientistas imaginavam, o estudo ajuda a construir modelos mais realistas sobre mundos oceânicos.

Europa permanece como um dos maiores laboratórios naturais do Sistema Solar. Agora, a ciência sabe que desvendar seus segredos exigirá não apenas encontrar água, mas compreender profundamente como ela se movimenta sob quilômetros de gelo.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes